O primeiro dia…

Posted 27/09/2009 by Atila Roque
Categories: Diversos, Internacional

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Algumas pessoas não entendem  porque gosto de passar um dia inteiro sem fazer “nada em especial” quando chego em algum lugar onde nunca estive, depois de uma longa e cansativa viagem. Pois foi isso exatamente o que se passou ontem , o primeiro dia  de uma semana em Dar es Salaam. Fiquei no hotel, dormindo, lendo, vendo tv e surfando  sem rumo certo na internet. Houve um tempo em que sentia uma necessidade, quase obrigação, de sair logo para aproveitar cada minuto e tentar conhecer o máximo do lugar onde chegava. Ficava esgotado e com uma  sensação desagradável de incompletude. Depois de praticamente 30 anos viajando feito um caixeiro pelo mundo, aprendi que a gente deve se aproximar dos lugares (e das pessoas) sem ansiedade, devagar, descansado e, sobretudo, sabendo que não será em uma semana, quase o tempo todo aprisionado em salas de reunião, que vou conhecer plenamente uma nova realidade.  Os lugares que conheço melhor são aqueles em que consegui chegar devagar, dando tempo para conversar com as pessoas, andar meio sem rumo e sem roteiro pelas ruas e, sobretudo, voltar outras vezes. Além do mais aprendi que preciso de um tempo para recompor o meu equilíbrio depois de praticamente dois dias em trânsito, entre aeroportos e voos transatlânticos. É como se eu chegasse literalmente meio desarrumado, uns pedaços ainda a caminho, desmembrado pelas decolagens e aterrisagens, moído pelas longas filas de imigração, descompensado pelas mudanças de temperatura e pressão. Enfim, eu sou assim e pronto. Não luto mais contra a minha natureza. Acho legal quem consegue fazer diferente, largar a mala e sair quase imediatamente para explorar o meio, voltando cheio de novidades, enquanto eu me deixo levar em longas chuveiradas no quarto de hotel. A verdade  é  que gosto da impessoalidade e do silêncio dos quartos de hotéis para, depois das viagens,  reencontrar o meu lugar nessa confusão chamada mundo. Agora sim, estou pronto para Dar es Salaam!

(Atila Roque, 27/09/2009)

Eurocentrismos

Posted 24/09/2009 by Atila Roque
Categories: Fundamentalismos, Internacional, Política, Racismo

- “Veio fazer o que em Lisboa?”,  grita no microfone um português cada vez mais europeu, para uma assustada senhora, vestida na sua melhor roupa de viagem, tendo agarrada à sua mão um menino lindo, carinha de índio, assustado e cansado da maratona do voo Brasília-Lisboa. A fila se agita e todos se olham, uns constrangidos, outros com pretensa superioridade, a menina esbelta  acompanhada da família de classe média alta de São Paulo diz brincando meio séria que pelo jeito até eles serão mandados de volta ao Brasil. Não, eles não, mas a senhora e o menino lindo são retirados da fila e levados a uma salinha qualquer,  espécie de limbo migratório, onde quase com certeza serão embarcados de volta, cabeças baixas e profundamente tristes. E eu, que não ando  precisando de desculpas para melancolia, fico triste com eles. Tristeza tropical, diria Levis Strauss…

A cena cada vez mais comum nos balcões de controle de entrada da Europa é sempre constrangedora e deprimente. A arrogância do “oficial de imigração” inquirindo quase sempre de maneira hostil as pessoas que não parecem merecer a sua confiança, seja lá por qual razão: mulheres muito jovens, mulheres nem tão jovens, pessoas de pigmentação  suspeita,  aquele com cara de ilegal, aquela com cara de muito legal, quase nunca os brancos e os endinheirados, sempre os de pele escura com pinta de “remediados”. A cena  é  humilhante. E humilha todos os que esperam a sua vez na fila, todos sujeitos em última instância ao mesmo arbítrio. Contradição de um mundo onde tudo viaja de um lado para outro nos ventos da liberalização e da globalização, exceto as pessoas, cada vez mais controladas, vigiadas, cerceadas nos seus deslocamentos.

As barreiras cada vez mais acintosas ao movimento transfronteriço de pessoas se tornaram  a melhor representação dos processos de segregação econômica e social que minam as possibilidades do intercâmbio cultural, da mistura das cores e dos sabores que tornam única a aventura humana no planeta. A liberdade de ir e vir é de fato um privilégios de uns poucos. As barreiras aos que querem entrar se acirram e, com elas, a pressão – o racismo e a xenofobia – sobre os que já entraram também aumenta. Os conflitos e as tensões migratórias ameaçam implodir de vez a fantasia de uma Europa Unificada.  E as cenas fronteriças se tornarão cada vez mais insuportáveis aos que ainda podem viajar.

Até quando seremos indiferentes e submissos aos gritos do policial de imigração?

(Atila Roque, 24/09/2009, a caminho da Tanzânia…)

I Was Black Before the Election

Posted 21/09/2009 by Atila Roque
Categories: EUA, Obama, Política

“Eu (já) era negro antes das eleições”, respondeu o Presidente Obama na edição de hoje do programa “David Letterman Show”, quando instado a comentar o peso do racismo nas inúmeras expressões de intolerância e violência ocorridas ao longo dos últimos meses durante os “town meetings”, debates organizados em todo país para discutir  a proposta de reforma do sistema de saúde. A frase e a própria atitude de Obama na entrevista revela um presidente ainda bastante confortável no cargo e determinado a “des-dramatizar” um dos mais dramáticos postos políticos do mundo. Continuo na torcida para que consiga!

(Passe o cursor do mouse na imagem abaixo e clique para assistir)

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A excelência na segurança pública é premiada

Posted 16/09/2009 by Atila Roque
Categories: Segurança, Sociedade

A festa de entrega da primeira edição do Prêmio Polícia Cidadã, promovido pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes, na segunda-feira à noite, foi um sucesso. Infelizmente eu não pude ir, mas acredito nos olhos que viram e nos ouvidos que ouviram as maravilhas de uma celebração que premiou os profissionais de segurança pública do Rio que se destacaram entre 183 trabalhos inscritos, assim como 500 policiais civis e militares. O número ainda é pequeno diante do total de 48 mil policiais civis e militares do Rio, mas é um bom começo. Como todo prêmio, a tendência é aumentar a credibilidade e a participação dos candidatos. (Leia a íntegra desse post no excelente Blog “Repórter de Crime”, escrito pelo jornalista e blogueiro, Jorge Antonio Barros)

Brasil – il – il – il

Posted 11/09/2009 by Alexandre Brandão
Categories: Cultura

Brasil  il il

Se algum dia fizerem antologia do cronista sem assunto, verão que todas as crônicas escritas nesse dia são iguais. Falamos coisa do tipo: hoje não haverá crônica, ou: a de hoje, só amanhã.

Neste exato momento, não consigo dar um exemplo concreto, mas arrisco a dizer que, do cronista maior ao cronistinha de uma figa, todos, quando tropeçamos, tropeçamos da mesma forma.

Isso não quer dizer que o talento se iguale nesse instante de fracasso. Um tombo de um Drummond tem o estilo do poeta; o meu, por sua vez, é só a queda desse corpanzil que cresceu, apareceu e ficou feiinho, feiinho.

Porém, neste país, assunto é o que não falta. Podem jogar os parágrafos anteriores fora, fazem falta não.

Giro minha câmera pro Senado. Não, aí é covardia, e tenho poucas linhas, espaço insuficiente pra dizer tudo que está borbulhando por lá. De todo jeito, só de relance, vi aquilo que meus olhos preferiam não ver.

Vamos pra outro lado. O pessoal da cultura tem trabalhado com nota fria? Oh, meu Deus, que novidade! Só na cultura, é? Será que somos chegados a um desvio ou o sistema é que joga todo mundo no limbo? Deixa isso pra lá, mal saiu a notícia no jornal, no outro dia já se dizia que as empresas tomaram juízo, está tudo resolvido, uma beleza. Sou a velhinha de Taubaté que, depois de ver tantas sarneiras, ficou cega — de nascença.

Meninas passam pra cá, passam pra lá. Passam pra lá, passam pra cá. São pêndulos de relógios? Marcam que espécie de tempo? Essa crônica bem poderia chafurdar no lirismo, ficar na cola da beleza, ou falar do Nadinho da Ilha, que morreu dia desses, mas…

A gripe suína está tirando todo mundo do sério. A gente anda com tanto medo, que esconde espirro, quando não prende. Tente espirrar em público. Todos os rostos se voltam contra você. Aliás, meu conselho é que, ameaçou espirrar, ligue para esse 0800 do Estado e, primeiro, peça desculpe e, depois, aproveite para perguntar se o seu atchim está condenado.

Seria bom viver num país em que faltasse assunto pra crônica! Eu poderia fixar-me no pêndulo desenhado pela beleza das meninas, homenagear o Nadinho, com quem dividi alguma mesa de bar e de quem vi o talento em ação, ou falar da Serra da Canastra (veja a foto). Lá, o São Francisco nasce chiquito, chiquito. Ao contrário dos problemas do Brasil, que nascem grandes e ficam enormes.

Não tenho medo de cara feia, mas acho que o Pedro Simon fez bem em ter.

(Alexandre Brandão)

Foto de Alexandre Brandão

Foto de Alexandre Brandão

Um sete de Setembro especial…

Posted 07/09/2009 by Atila Roque
Categories: Política

O Blog do Tas coletou fotos de manifestações cívicas Brasil a fora pedindo a saída de Sarney da Presidência do Senado. Elas mostram que é possível inovar na comemoração do Dia da Independência…

Opinativas-1

Estado laico, Lula e religião

Posted 06/09/2009 by Atila Roque
Categories: Igreja, Política

OpinativasJá não me espanto com quase nada. Começo a aceitar tudo. Corro o risco de ver a minha ironia se transformar em ceticismo total e desencanto cívico. Essa foi a maior contribuição do governo Lula a minha relação com a vida política. Continuo buscando razões para acreditar que é possível uma política baseada em princípios e convicções éticas, com a qual podemos sempre discordar, sem nunca deixar de respeitar diferentes posições. É da vida democrática. Assim como é da vida democrática a necessidade de acordos e compromissos no exercício do poder e da gestão governamental. Um jogo nem sempre muito bonito, especialmente diante da necessidade de se constituir maiorias parlamentares em um quadro de anomia e crise de representação dos partidos políticos. Mas os últimos anos foram duros. A ética e os princípios foram submetidos a lógica da manutenção do poder a qualquer preço, disseminando a impressão de que todos são iguais e reforçando uma relação estritamente utilitária com o governante. Ele é melhor porque melhor atende aos meus interesses e não porque difere dos demais nos seus princípios. O mérito e diferencial do governo Lula é que desta vez houveram benefícios reais para os mais pobres. Mas a lógica utilitária da política saiu reforçada. Tudo isso para manifestar a minha inútil indignação (como enforcado, apenas exerço o poder de espernear) com a ruptura desavergonhada do princípio do estado laico promovida nos últimos tempos pelo governo. Dois exemplos recentes demonstram como avançamos rapidamente na promiscuidade interesseira entre estado e religião. Primeiro, o Acordo firmado entre o governo brasileiro e a Santa Sé, abrindo o caminho para a regulamentação de uma séries de benefícios fiscais e facilidades para a “evangelização” católica, inclusive nas escolas públicas. Em segundo lugar, o ato realizado, no último dia 03/08, com pompa e circunstância na Presidência da República para a assinatura da sanção presidencial do Projeto Lei de autoria do Deputado e Bispo Marcelo Crivella que cria o Dia da Marcha para Jesus. Além de Lula da Silva, Dilma Roussef e Michel Temer (Presidente da Câmara de Deputados), o evento foi honrado com a presença de Estevam e Sônia Hernandes, bispos da Igreja Renascer (organizadora da Marcha para Jesus), recém chegados de uma temporada de cinco meses em prisão federal nos EUA, atualmente em liberdade condicional, depois de tentarem entrar clandestinamente nos EUA com a bagatela de 56 mil dólares, uma parte escondida no fundo falso de uma bíblia. Cumprimentaram e posaram junto com o Presidente e a Ministra.

Mais um instantâneo para a coletânea “Mal na Foto” que parece estar sendo organizada pelo Palácio do Planalto…

(Atila Roque)

Política, diversão e arte

Posted 04/09/2009 by Atila Roque
Categories: Política

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O imortal das Alagoas

Posted 02/09/2009 by Atila Roque
Categories: Diversos, Violência

Alagoas e Collor nunca nos decepcionam. A Academia de Letras de Alagoas sagrou o escritor sem nenhum livro escrito como membro imortal. Faz sentido. É sempre menos danoso à comunidade literária um imortal iletrado e inédito do que um imortal prolixo e publicado, como um conhecido personagem do Maranhão que deve alegrar os chás da tarde da Academia Brasileira de Letras com seus contos cabeludos de orgias com anões besuntados nas salas secretas do Senado…

Por essas e outras que eu me ufano desse país!

Segurança Pública como desafio democrático

Posted 28/08/2009 by Atila Roque
Categories: Política

Atila Roque

É com grande expectativa que acompanhamos os trabalhos da I Conferência Nacional de Segurança Pública (Conseg, 27-31/08), aberta oficialmente ontem (27/08) pelo Presidente Lula (veja vídeo no post anterior), diante de um plenário com cerca de 3 mil participantes composto de organizações sociais, militantes de direitos humanos, pesquisadores e profissionais da segurança pública. Embora tenha sido marcada por dificuldades decorrentes da resistência em incluir temas importantes para as organizações de direitos humanos e outras que há anos lutam contra os desmandos e violações cometidas pelas polícias, a Conseg deve ser saudada como momento simbólico no reconhecimento da segurança pública como uma questão central da democracia.

O campo da segurança pública, em grande medida, atravessou o longo período de democratização praticamente incólume a qualquer questionamento de suas bases autoritárias e patrimonialistas. Nem mesmo a “Constituição Cidadã”, promulgada em 1988, foi capaz de romper a impermeabilidade do sistema de segurança pública vigente no Brasil de modo a adequá-lo aos novos tempos. Permaneceu a perversa alquimia institucional que combina elementos do “aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei” da velhusca república dos “coronéis”, com a doutrina de “Segurança Nacional” da ditadura militar.

O resultado foi um monstrengo institucional diligente na “criminalização” da população pobre e leniente com o crime organizado. A ausência de mecanismos de controle externo, treinamento e formação profissional adequados, somados a remunerações quase sempre infames, tornaram a força policial vítima e algoz de um modelo falido de segurança pública. Algumas das tentativas meritórias de reforma do sistema e de novas práticas de policiamento, embora exemplares, são insuficientes para deslanchar um processo realmente profundo de reforma do sistema de segurança.

Continuamos carentes de um esforço concertado na sociedade e no Estado que imprima ao tema da segurança pública a urgência que se deve atribuir às situações de calamidade pública ou emergência social, claramente expressa nos números e indicadores existentes no Brasil, especialmente aqueles relativos à violência letal contra jovens pobres e negros. É fundamental que segurança pública passe a ser reconhecida com parte do rol de direitos fundamentais a que todas as pessoas devem desfrutar. Para isso precisamos de um compromisso mais amplo das forças sociais e políticas que, esperamos, a Conseg possa começar a desenhar.

Estejamos, portanto, atentos aos próximos dias!