Algumas pessoas não entendem porque gosto de passar um dia inteiro sem fazer “nada em especial” quando chego em algum lugar onde nunca estive, depois de uma longa e cansativa viagem. Pois foi isso exatamente o que se passou ontem , o primeiro dia de uma semana em Dar es Salaam. Fiquei no hotel, dormindo, lendo, vendo tv e surfando sem rumo certo na internet. Houve um tempo em que sentia uma necessidade, quase obrigação, de sair logo para aproveitar cada minuto e tentar conhecer o máximo do lugar onde chegava. Ficava esgotado e com uma sensação desagradável de incompletude. Depois de praticamente 30 anos viajando feito um caixeiro pelo mundo, aprendi que a gente deve se aproximar dos lugares (e das pessoas) sem ansiedade, devagar, descansado e, sobretudo, sabendo que não será em uma semana, quase o tempo todo aprisionado em salas de reunião, que vou conhecer plenamente uma nova realidade. Os lugares que conheço melhor são aqueles em que consegui chegar devagar, dando tempo para conversar com as pessoas, andar meio sem rumo e sem roteiro pelas ruas e, sobretudo, voltar outras vezes. Além do mais aprendi que preciso de um tempo para recompor o meu equilíbrio depois de praticamente dois dias em trânsito, entre aeroportos e voos transatlânticos. É como se eu chegasse literalmente meio desarrumado, uns pedaços ainda a caminho, desmembrado pelas decolagens e aterrisagens, moído pelas longas filas de imigração, descompensado pelas mudanças de temperatura e pressão. Enfim, eu sou assim e pronto. Não luto mais contra a minha natureza. Acho legal quem consegue fazer diferente, largar a mala e sair quase imediatamente para explorar o meio, voltando cheio de novidades, enquanto eu me deixo levar em longas chuveiradas no quarto de hotel. A verdade é que gosto da impessoalidade e do silêncio dos quartos de hotéis para, depois das viagens, reencontrar o meu lugar nessa confusão chamada mundo. Agora sim, estou pronto para Dar es Salaam!
(Atila Roque, 27/09/2009)
- “Veio fazer o que em Lisboa?”, grita no microfone um português cada vez mais europeu, para uma assustada senhora, vestida na sua melhor roupa de viagem, tendo agarrada à sua mão um menino lindo, carinha de índio, assustado e cansado da maratona do voo Brasília-Lisboa. A fila se agita e todos se olham, uns constrangidos, outros com pretensa superioridade, a menina esbelta acompanhada da família de classe média alta de São Paulo diz brincando meio séria que pelo jeito até eles serão mandados de volta ao Brasil. Não, eles não, mas a senhora e o menino lindo são retirados da fila e levados a uma salinha qualquer, espécie de limbo migratório, onde quase com certeza serão embarcados de volta, cabeças baixas e profundamente tristes. E eu, que não ando precisando de desculpas para melancolia, fico triste com eles. Tristeza tropical, diria Levis Strauss…


Já não me espanto com quase nada. Começo a aceitar tudo. Corro o risco de ver a minha ironia se transformar em ceticismo total e desencanto cívico. Essa foi a maior contribuição do governo Lula a minha relação com a vida política. Continuo buscando razões para acreditar que é possível uma política baseada em princípios e convicções éticas, com a qual podemos sempre discordar, sem nunca deixar de respeitar diferentes posições. É da vida democrática. Assim como é da vida democrática a necessidade de acordos e compromissos no exercício do poder e da gestão governamental. Um jogo nem sempre muito bonito, especialmente diante da necessidade de se constituir maiorias parlamentares em um quadro de anomia e crise de representação dos partidos políticos. Mas os últimos anos foram duros. A ética e os princípios foram submetidos a lógica da manutenção do poder a qualquer preço, disseminando a impressão de que todos são iguais e reforçando uma relação estritamente utilitária com o governante. Ele é melhor porque melhor atende aos meus interesses e não porque difere dos demais nos seus princípios. O mérito e diferencial do governo Lula é que desta vez houveram benefícios reais para os mais pobres. Mas a lógica utilitária da política saiu reforçada. Tudo isso para manifestar a minha inútil indignação (como enforcado, apenas exerço o poder de espernear) com a ruptura desavergonhada do princípio do estado laico promovida nos últimos tempos pelo governo. Dois exemplos recentes demonstram como avançamos rapidamente na promiscuidade interesseira entre estado e religião. Primeiro, o 