Nota da Anistia Internacional sobre Pinheirinho

26/01/2012 at 12:55 pm 1 comentário

24 de Janeiro de 2012

O Brasil precisa responder as necessidades de milhares de pessoas deixadas sem teto após um despejo forçado

Esse despejo viola um grande número de normas internacionais (Atila Roque, diretor executivo da Anistia International Brasil)

 

A Anistia Internacional pede que as autoridades brasileiras atendam com urgência as necessidades de aproximadamente 1.600 famílias que foram deixadas sem teto devido à execução de um despejo forçado em um assentamento no estado de São Paulo.

A expulsão, que teve início no domingo, foi efetuada sem aviso prévio, quando negociações com os moradores estavam em andamento e sem que fossem disponibilizadas moradias alternativas.

Confrontos violentos entre policiais e moradores se estenderam até a segunda-feira, depois que um juiz estadual determinou que quase dois mil policiais executassem a reintegração de posse da área, localizada na periferia da cidade de São José dos Campos. Segundo o comando da polícia, o despejo será concluído no dia 25 de Janeiro de 2012.

“Esse despejo viola uma série de normas internacionais”, disse Átila Roque, diretor da Anistia Internacional Brasil.

“A operação foi efetuada de modo totalmente inadequado: nas primeiras horas da manhã de domingo e sem nenhum aviso apropriado. A expulsão foi levada a cabo apesar de as autoridades estarem em meio a uma negociação que visava encontrar uma saída pacífica”, afirmou.

Sem qualquer aviso prévio, a polícia de choque chegou ao local às 6 horas da manhã de domingo, com o apoio de veículos blindados e helicópteros, usando gás lacrimogêneo e balas de borracha. As autoridades cortaram o fornecimento de energia, gás e telefone, além de isolarem a área com cordão de segurança e restringirem o acesso às residências.

Cerca de 30 pessoas foram presas depois que alguns moradores do assentamento, que já existia há oito anos, resistiram à expulsão montando barricadas, incendiando veículos e atirando pedras e pedaços de pau.

A ordem de despejo contrariou um acordo anterior para suspender a desocupação enquanto se buscava uma solução pacífica, a qual incluía a possibilidade de que o governo federal pudesse adquirir aquela terra e legalizar os títulos dos residentes.

Muitos moradores tiveram que recorrer aos parentes para se abrigar, enquanto que outros – cerca de 350 famílias – foram acomodados em um ginásio com condições de saneamento precárias. Alguns tiveram permissão para retornar à área desocupada a fim de recolher seus pertences antes das casas serem demolidas.

O assentamento Pinheirinho formou-se em 2004, depois que grupos de sem-teto ocuparam uma área abandonada pertencente à massa falida de uma empresa de investimentos.

Igrejas, quadras de futebol, bibliotecas e lojas já começavam a surgir naquela área e os moradores tentavam legalizar a situação através de um programa do governo estadual denominado Cidade Legal, mas não tiveram êxito.

A associação dos moradores está recorrendo ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que a ordem de despejo seja revogada.

“O que está acontecendo no Pinheirinho, lamentavelmente, faz parte de um esquema recorrente de despejos forçados no Brasil: à medida que o país cresce, dezenas de milhares de famílias pobres estão sendo removidas para dar lugar a empreendimentos e projetos de infraestrutura privados, sem que recebam proteção adequada e moradias alternativas”, afirmou Atila Roque.

“As autoridades brasileiras devem atender imediatamente as necessidades de milhares de pessoas que agora estão sem teto. Devem tomar a iniciativa de estabelecer relações com os moradores para encontrar uma solução de longo prazo que satisfaça suas necessidades, mais do que vagas temporárias em abrigos que desagregam famílias”, acrescentou.

Apesar de significativos investimentos por parte do governo federal, o Brasil ainda encontra dificuldades para superar um imenso déficit habitacional. Enquanto isso, por todo o país, milhões de pessoas vivem em assentamentos irregulares.

De acordo com o direito internacional, inclusive com o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), o Brasil está proibido de executar despejos forçados e deve proteger sua população contra tais ações.

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1 Comentário Add your own

  • 1. Marco Aurélio Leite da Silva  |  28/01/2012 às 12:55 pm

    A questão, já de muito, transcendeu a esfera jurídica e adentrou à arenosa seara da cidadania. Isso não é suficiente para alterar os paradigmas jurídicos mas é mais que o bastante para provocar uma efetiva ação do Poder Público para a solução total e imediata da situação.

    O Estado de São Paulo e o Município de São José dos Campos têm o dever moral de solucionar o caso sem violência. Mas agora, pelas notícias veiculadas, já houve o enfrentamento da Polícia Militar com as famílias que moram no Pinheirinho…

    A Polícia Militar não tem culpa alguma. É uma força de atuação compulsória, de essência militar, que obedece ordens sem discutir.

    A culpa é da inoperância do Poder Público nas esferas sociais. Anos e anos de reuniões e compromissos para nada… Não é à toa que dizem: se quer solucionar um problema, tome atitudes; se não quer, faça reuniões.

    Depois da violência, simplesmente voltamos ao Estado Feudal… Armas e brasões no lombo dos servos…

    O Poder Público foi pífio, incompetente, nécio, omisso, para dizer o mínimo, na questão do Pinheirinho. Quem é da região bem sabe o que digo. Não são grileiros movidos por manipulação política; são famílias que ocuparam uma área e construíram uma comunidade de trabalhadores.

    A questão da propriedade e sua função social, diga-se preceito constitucional, ficou como letra morta diante da falta de vontade política de resolver a questão.

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