O retorno das más notícias

Parecia que a onda começava a mudar e, finalmente, boas notícias começavam a surgir no noticiário da segurança pública. A Conferência Nacional de Segurança Pública (Conseg) recém realizada, as experiências das Unidades Paficificadoras da Polícia (UPPs) em algumas favelas cariocas e a premiação dos exemplos bem sucedidos da ação policial virtuosa eram sinais claros de que novos ares começavam a soprar na área da segurança pública, especialmente no Rio de Janeiro. Começava-se, inclusive, a se falar no surgimento do sentimento de “orgulho policial”,  como em outros momentos se falou de “orgulho negro” (black is beautiful) ou orgulho gay, para expressar um crescente reconhecimento do valor social de uma polícia eficiente e cidadã, capaz de agir com inteligência e sem truculência na prevenção e repressão do crime. Uma polícia que almeja ser cada vez mais parte da solução e não dos problemas.

No entanto, os episódios desta semana vieram mostrar para os que ainda se iludiam que o buraco é bem mais embaixo e que estamos longe do dia em que teremos uma polícia e uma política de segurança digna de uma democracia e de um país com as dimensões e ambições do Brasil. Os eventos chocantes de violência e caos no Rio de Janeiro que resultaram, em menos de uma semana, na morte de mais de 30 pessoas e na derrubada  de um helicóptero da polícia, revelaram a falta de coordenação e articulação das principais autoridades do Estado, o baixo preparo da polícia e a permanência de antigos vícios. Surpreendidos pela guerra do tráfico a polícia reage com ações espalhafatosas de baixa eficiência e muito violência, especialmente para as comunidades pobres diretamente envolvidas. O risco agora é o retrocesso dos movimentos ainda tímidos,  mas extremamente importantes, de civilização da ação policial, em favor da pirotecnia espalhafatosa das ações espetaculares, quase sempre acompanhadas de violência e de baixíssima eficiência no combate efetivo do crime.

E para completar as péssimas notícias dessa semana, a informação de que policiais militares que chegaram quase imediatamente à cena do trágico assassinato do coordenador social do Grupo Cultural Afroreggae, Evandro João da Silva, no último domingo, não apenas ignoraram a sua agonia, deixando de socorrê-lo logo após o assalto, mas também permitiram aos assassinos irem embora depois de negociações obscuras feitas imediatamente após o crime. A gravação recuperada das câmeras de segurança do comércio e dos prédios com as imagens indiferença dos policiais diante de uma pessoa baleada e, depois, de um dos policiais voltando para o carro com os pertences roubados de Evandro, enquanto um dos assassinos deixava o local tranquilamente, choca e causa enorme tristeza.

A maneira como as autoridades públicas responsáveis pela segurança pública vão atuar nos próximos dias será um indicador valioso do que devemos esperar daqui para a frente. Só posso sonhar que o tempo das boas notícias não tenha sido tão precocemente encerrado.

(Atila Roque, 21/10/2009)

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4 Comments on “O retorno das más notícias”

  1. Edelcio Vigna Says:

    Atila, invejo o seu otimismo em relação ao aparato repressivo do Estado. As forças policiais tem a capacidade de resumir todos preconceitos cultivados pelas classes dominantes. Parece conversa de esquerdista radical, mas é apenas uma constatação. Se o Estado não mudar, não haverá mudança nenhuma. Assume uma liderança mais democrática e a soldadesca comparece nas Conferencias de DH ou de Segurança Pública, mas no ambiente do quartel tudo regride. Não há compatibilidade entre democracia e violência, pois esta só se volta contra os mais enfraquecidos.
    Acho que estou pessimista, mas parabéns, pelo grito de revolta e alerta.
    Del Vigna

    • Atila Roque Says:

      Del, querido, incrível, você me achou otimista…

      Mas não acho que temos que esperar a mudança do estado para querer uma política de segurança e uma polícia civilizada e democrática. Como insistia o Luiz Eduardo Soares, esse foi o erro que cometemos na transição para a democracia: não incluímos o tema da segurança pública nas nossas agendas de mudanças. Deixamos o assunto para ser equacionado pela direita e pelos militares. Não podemos insistir nisso. Estou entre aqueles que acreditam que é preciso sonhar com o belo mesmo quando estamos imersos na feiúra. Acreditar na mudança é o primeiro (e fundamental) passo para concretizá-la.

      Abraços,

      Atila

  2. Alexandre Brandão Says:

    Eu de minha parte, menos conhecedor desses “temas”, mas habitante dessas terras do Brasil, fico pensando numa coisa séria, muito séria: não nos assustamos mais, ou poucos se assustam.

    O duplo assassinato do Evandro deveria ser motivo para, ainda que simbolicamente, e com todas as dúvidas que pairam sobre atos apenas simbólicos, termo-nos vestido de luto e bradado gritos de indignação pelas ruas.

    Estamos a um pé da perversão social.

    • Atila Roque Says:

      Xandón, concordo inteiramente. É como se vivessemos em um estado de dormência dos sentidos em relação não apenas a violência, mas ao próprio barbarismo latente na sociedade. Basta ver o nosso trânsito e a indiferença com as crianças largadas pelas nossas ruas.


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