Hoje, o que sei da poesia

Gávea3

Por: Alexandre Brandão

Não me tomem por pecador, se falo fala fina e tímida, com jeito de iconoclastia. Tem dias que não estou pra Drummond, não estou pra Adélia, não estou pra Pessoa alguma. Noutros, sou eles e esqueço de mim, ou, por outra, sou o que só pra mim, de mim, dizem: podre se podre, pétreo se pétreo; líquido.

Não é sempre que me alcançam os outonais haicais, por breves. Não chego inteiro, sequer aos pedaços, pois estes esfarelam-se pelo caminho, aos épicos de cauda longa. Seduzido sou pelo ritmo, pela pegada, pelo pancadão. Olhe, por exemplo, o bumbo nocauteador do poeta Barreto (O sono provisório, pág. 11, 1978, Editora Francisco Alves):


    Vivo sobrevivente de um desastre aéreo e
    ferroviário
    que acontece todos os dias na cozinha
    onde escaldo calendários e fervo a família
    jornais e margarinas
    Tempero com cola substantivos abstratos
    como quem tenta se vingar da própria língua.

Mesmo contrita no adro da casa santa, a poesia está sempre fornicando. Às vezes, com anjos; noutras, com sono. Seu gozo não é sopa de letrinhas, não são os postergados pelas prostitutas; seu gozo é silêncio e bambeza de pernas, tracejado por um cartunista que se deixa levar pelas pontas rombudas de seus lápis.

Entendo a poesia que descomprime o tórax, permitindo assim a passagem da respiração, que fluia tranqüila e, por assustar-se, cai momentaneamente no sono. Odeio o entendimento loquaz da poesia, garganteado pelos bêbados da razão. Amo a poesia dos calafrios.

A poesia não ri de mim, não ri pra mim. Não chora de mim nem chora pra mim. A poesia caçoa do sol, conquanto o descreva em versos amarelos. A poesia nunca viu a lua, pois à noite cheira dos tatus as tocas e assiste a coito de formigas que, sob o mantô de terra, fazem o feito, o desfeito e não murmuram. As formigas não murmuram; a poesia, sim. Nisso, parece-se com as vacas e com os vasos sanguíneos do velocista que busca quebrar o recorde olímpico.

A poesia, amante, se é, não espera. Quando quer, cheira e fuma as delícias de seu vício para entrar no sonho alheio e tirar do foco as imagens que, por si só, são incompreensíveis. Desse modo faz partir pra longe a última chama memorial que o adormecido cultivava como lágrima contida. Pela manhã, ao sentar-se na cama, botar os pés no chão e começar a fazer força para erguer o corpo, o poetinha distraído e sonhador ganha no bucho de sua consciência uma gota de verso como esta:


    Pago todas as contas
    Mas comigo não conte
    Para afundar navios
    E fundear vazios
    Distintos dos meus.

A poesia é a voz que se escuta quando não há voz alguma, e os poetas são os doidos da vez — de todas as vezes.

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3 Comments on “Hoje, o que sei da poesia”

  1. Dag Bandeira Says:

    Quisera eu entender e sentir a poesia com a alma de Alexandre. Só assim teria o prazer de ser “a doida da vez”.

    • Alexandre Brandão Says:

      Dag, minha querida, você, fique tranquila, é a doidinha de muitas vezes, com sua alma toda sua.

      Beijos

  2. Wetestics Says:

    Great, I didn’t heard about this topic until now. Thanx!


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