Eurocentrismos

- “Veio fazer o que em Lisboa?”,  grita no microfone um português cada vez mais europeu, para uma assustada senhora, vestida na sua melhor roupa de viagem, tendo agarrada à sua mão um menino lindo, carinha de índio, assustado e cansado da maratona do voo Brasília-Lisboa. A fila se agita e todos se olham, uns constrangidos, outros com pretensa superioridade, a menina esbelta  acompanhada da família de classe média alta de São Paulo diz brincando meio séria que pelo jeito até eles serão mandados de volta ao Brasil. Não, eles não, mas a senhora e o menino lindo são retirados da fila e levados a uma salinha qualquer,  espécie de limbo migratório, onde quase com certeza serão embarcados de volta, cabeças baixas e profundamente tristes. E eu, que não ando  precisando de desculpas para melancolia, fico triste com eles. Tristeza tropical, diria Levis Strauss…

A cena cada vez mais comum nos balcões de controle de entrada da Europa é sempre constrangedora e deprimente. A arrogância do “oficial de imigração” inquirindo quase sempre de maneira hostil as pessoas que não parecem merecer a sua confiança, seja lá por qual razão: mulheres muito jovens, mulheres nem tão jovens, pessoas de pigmentação  suspeita,  aquele com cara de ilegal, aquela com cara de muito legal, quase nunca os brancos e os endinheirados, sempre os de pele escura com pinta de “remediados”. A cena  é  humilhante. E humilha todos os que esperam a sua vez na fila, todos sujeitos em última instância ao mesmo arbítrio. Contradição de um mundo onde tudo viaja de um lado para outro nos ventos da liberalização e da globalização, exceto as pessoas, cada vez mais controladas, vigiadas, cerceadas nos seus deslocamentos.

As barreiras cada vez mais acintosas ao movimento transfronteriço de pessoas se tornaram  a melhor representação dos processos de segregação econômica e social que minam as possibilidades do intercâmbio cultural, da mistura das cores e dos sabores que tornam única a aventura humana no planeta. A liberdade de ir e vir é de fato um privilégios de uns poucos. As barreiras aos que querem entrar se acirram e, com elas, a pressão – o racismo e a xenofobia – sobre os que já entraram também aumenta. Os conflitos e as tensões migratórias ameaçam implodir de vez a fantasia de uma Europa Unificada.  E as cenas fronteriças se tornarão cada vez mais insuportáveis aos que ainda podem viajar.

Até quando seremos indiferentes e submissos aos gritos do policial de imigração?

(Atila Roque, 24/09/2009, a caminho da Tanzânia…)

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3 Comments on “Eurocentrismos”

  1. Iara Pietricovsky Says:

    Querido Atila,

    cada vez que cruzo fronteiras, observo coisas semelhantes e tenho os mesmos sentimentos de indignação. Gente que entra nos vôos seguidos por policiais, situações vexatórias. Em geral, sairam porque queriam trabalhar, melhor chance de vida, gente boa, de boníssima intenção. Gente que sustenta todos estes países ricos em atividades que ninguém quer, mas que são fundamentais etc. Preconceito, barreiras, contradição, arrogância, autoritarismo etc. E assim el planeta va….

    bjs

    • Atila Roque Says:

      Pois é Iarita, triste que tenhamos que viver cercados de barreiras que nos separam de maneira hierárquica, reforçando estigmas e preconceitos, naturalizando mecanismos de exclusão em nome da proteção de um modo de vida que está levando à degradação do planeta e das relações entre as pessoas.

      Beijos,

  2. Juarez de Paula Says:

    Átila,
    É por isso que tenho evitado, intencionalmente, a maioria das viagens internacionais que seria obrigado a fazer por razões profissionais.
    Nós, mestiços, temos sempre o risco de sermos confundidos com algum “árabe suspeito de terrorismo” e desaparecermos em algum subterrâneo das agências secretas de segurança.
    Juarez


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