Estado laico, Lula e religião

OpinativasJá não me espanto com quase nada. Começo a aceitar tudo. Corro o risco de ver a minha ironia se transformar em ceticismo total e desencanto cívico. Essa foi a maior contribuição do governo Lula a minha relação com a vida política. Continuo buscando razões para acreditar que é possível uma política baseada em princípios e convicções éticas, com a qual podemos sempre discordar, sem nunca deixar de respeitar diferentes posições. É da vida democrática. Assim como é da vida democrática a necessidade de acordos e compromissos no exercício do poder e da gestão governamental. Um jogo nem sempre muito bonito, especialmente diante da necessidade de se constituir maiorias parlamentares em um quadro de anomia e crise de representação dos partidos políticos. Mas os últimos anos foram duros. A ética e os princípios foram submetidos a lógica da manutenção do poder a qualquer preço, disseminando a impressão de que todos são iguais e reforçando uma relação estritamente utilitária com o governante. Ele é melhor porque melhor atende aos meus interesses e não porque difere dos demais nos seus princípios. O mérito e diferencial do governo Lula é que desta vez houveram benefícios reais para os mais pobres. Mas a lógica utilitária da política saiu reforçada. Tudo isso para manifestar a minha inútil indignação (como enforcado, apenas exerço o poder de espernear) com a ruptura desavergonhada do princípio do estado laico promovida nos últimos tempos pelo governo. Dois exemplos recentes demonstram como avançamos rapidamente na promiscuidade interesseira entre estado e religião. Primeiro, o Acordo firmado entre o governo brasileiro e a Santa Sé, abrindo o caminho para a regulamentação de uma séries de benefícios fiscais e facilidades para a “evangelização” católica, inclusive nas escolas públicas. Em segundo lugar, o ato realizado, no último dia 03/08, com pompa e circunstância na Presidência da República para a assinatura da sanção presidencial do Projeto Lei de autoria do Deputado e Bispo Marcelo Crivella que cria o Dia da Marcha para Jesus. Além de Lula da Silva, Dilma Roussef e Michel Temer (Presidente da Câmara de Deputados), o evento foi honrado com a presença de Estevam e Sônia Hernandes, bispos da Igreja Renascer (organizadora da Marcha para Jesus), recém chegados de uma temporada de cinco meses em prisão federal nos EUA, atualmente em liberdade condicional, depois de tentarem entrar clandestinamente nos EUA com a bagatela de 56 mil dólares, uma parte escondida no fundo falso de uma bíblia. Cumprimentaram e posaram junto com o Presidente e a Ministra.

Mais um instantâneo para a coletânea “Mal na Foto” que parece estar sendo organizada pelo Palácio do Planalto…

(Atila Roque)

Explore posts in the same categories: Igreja, Política

2 Comments on “Estado laico, Lula e religião”

  1. Moroni Says:

    Prezado Atila

    Concordo em tudo com o teu artigo. Na verdade estes fatos tambem demonstram o quanto o nosso Estado ainda funciona na logica do interesse privado. Por mais legitimo que possam ser os interesses das ingrejas eles são interessses de um determinado grupo social e nao de toda a sociedade. O problema que todas as religiões se colocam no patamar da defesa do interesse publico, pois confundem os seus interesses, sejam da sua moral, dos seus costumes, etc como de todos. Por isso a raiz das religioes sao autoritárias.
    Moroni

  2. Edelcio Vigna Says:

    Meu querido Átila, você bateu na veia, prá não dizer no figado. Este anda tão por baixo do coraçao que poucos se lembram dele. Antes agíamos com o fígado e com o coração. Agora parece que nos falta órgãos. A manisfestação contra El Bigodón foi desviada para as laterais da Esplanada. Ninguém proíbe, apenas marginaliza (na raiz do termo).
    A recepção dos criadores do Dia da Marcha para Jesus (isto não é um dia, é uma convocatória aos desesperados!) foi repugnante (não acho termo melhor ou mais suave). Só falta agora a TFP reinaugurar a Marcha da Família com Deus e pela Liberdade!


Comment: