Um dia muito especial na Maré
Sílvia Ramos, do CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), enviou a uma lista de amigos, no dia 29, um relato emocionado e emocionante do que presenciou durante a “Conferência Livre de Segurança Pública da Maré”. É o relato de um dia muito especial, parafraseando o belo filme de Ettore Scola, onde a cidade síntese de todos problemas possíveis mostra que também é capaz de produzir encontros extraordinários.
Obrigado Sílvia!
Atila Roque
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Queridos amigos,
Escrevo para fazer um relato de um dia fora do comum. Acabo de chegar da Conferência Livre de Segurança Pública da Maré, a primeira conferência livre de um bairro do Rio de Janeiro no contexto da Conseg (Conferência Nacional de Segurança Pública).
Para minha surpresa, verifiquei que estavam presentes nada menos que 185 pessoas formalmente inscritas, entre moradores da Maré, lideranças comunitárias, ativistas de direitos humanos, pesquisadores, além do comandante do 22º Batalhão da Polícia Militar, coronel Seixas, a capitão Pricilla, que comanda o policiamento comunitário do Santa Marta e o coronel Seabra, que comanda as comunicações da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Além desses, muitos amigos da Redes da Maré e das outras entidades que convocaram a conferência livre passaram por lá o dia todo. Inclusive um grupo de franceses vindos do município da periferia de Paris, Virth-Sur-Seine, que anotavam cada frase entre boquiabertos e incrédulos.
Tudo ocorreu no Centro de Artes da Maré, o belo e grandioso espaço que Lia Rodrigues e seu grupo de dança e arte, juntamente com a Redes da Maré, ergueram dos escombros de um velho galpão, numa das entradas da favela Nova Holanda, no conjunto de favelas da Maré.
As fortes emoções começaram pela manhã bem cedo, quando traficantes reagiram à presença de veículos e do forte efetivo da Polícia Militar com tiros dirigidos ao local onde se realizaria a conferência. Tudo se acalmou rapidamente, quando os traficantes perceberam que não se tratava de uma invasão, mas de um debate. A tensão, contudo, perdurou por um tempo até a abertura.
Eliana Silva, diretora da Redes da Maré, abriu os trabalhos com uma explicação da importância histórica da participação da Maré na Conferência Nacional de Segurança Pública: “a Maré vai levar suas propostas, nós queremos ter voz em Brasília”. ”Por isso estamos cumprindo os procedimentos de uma conferência livre”, explicou Raquel Willadino, do Observatório de Favelas. Miriam Guindani e Julita Lemgruber fizeram ótimas exposições sobre o sistema de justiça criminal, o controle externo da polícia e sublinharam a importância do encontro. O tom da abertura e a ênfase no diálogo deram o mote do dia: “todos que estão aqui são bem-vindos. Não queremos preconceitos, queremos o diálogo e vamos debater tranquilamente nossas opiniões sobre segurança pública, que é um tema que nos afeta diretamente”, disse Eliana.
Ao longo do dia o que se viu foi quase um milagre: grupos de 30 a 40 pessoas discutiam de forma muito organizada pontos dos eixos temáticos e anotavam suas conclusões em grandes cartolinas. Os grupos tinham a cara da diversidade total, gente de favela, do asfalto, da cultura, da militância, da polícia, da academia.
O almoço, preparado pela famosa “Galega”, da Maré, arrasou, com cinco opções, que iam da carne de sol ao estrogonofe, vários tipos de feijão, cuscuz, farofa e fartura nordestina total.
Bira, o fotógrafo da Escola de Fotógrafos Populares, mostrava em sua câmera uma das centenas de fotos que bateu ao longo do dia; o coronel Seabra inclinado se servindo no balcão da Galega ao lado do Robson, da Rocinha e do Viva Rio e de outras lideranças da Maré. Bira me disse: “vem ver: democracia é isso”.
Na mesa de almoço em que estava o coronel Seabra se sentaram Marcia Jacinto, que teve seu filho assassinado em 2002 e que investigou o crime por contra própria e provou que ele fora assassinado por policiais, que hoje estão presos (Marcia ganhou o prêmio Faz Diferença do Jornal O Globo de 2008), Patrícia Oliveira, irmã do Wagner, da Candelária, da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência e outras ativistas que eu não conhecia. Seabra, Seixas e Pricilla, os policiais, tinham participado do mesmo grupo de debates que Márcia, Patrícia e outras 30 pessoas antes do almoço e a despeito das diferenças, o que se viu naquele e nos outros grupos ali na Maré é que o diálogo – milagre – é possível.
O mais incrível do Rio é que essas coisas, essas cenas inesperadas, essas viradas de página se dêem exatamente na Maré, ali onde t-o-d-a-s as dificuldades, barreiras, tabus, preconceitos teriam tudo para ser maiores do que são em qualquer lugar. Ali onde é mais difícil reunir pessoas para “discutir segurança publica” do que em Copacabana, Barra da Tijuca ou Botafogo, com suas mil opções de locais seguros e tranquilos. Ali na Maré, onde a Conferência Livre começa com tiros e acaba com diálogos imprevisíveis e inusitados… isso também é o Rio. E isso é histórico.
Graças à coragem da Eliana e do monte de gente corajosa, criativa e ousada que ela lidera hoje no Rio de Janeiro.
Um abraço,
Sílvia

03/07/2009 at 12:55 pm
Pois é, há mais coisas entre o céu e a terra… Os movimentos que ocorrem na sociedade não são facilmente perceptíveis. Contribuem para isso a mídia que não noticia mobilizações populares (ou outras), o imobilismo ou a preguiça mental de intelectuais e ONGs (com honrosíssimas excessões) que preferem repetir os mantras de denúncias e eternas reclamações sobre a sociedade e o “sistema” que iriam de pior a pior etc. A morte e a cooptação dos movimentos sociais estão de há muito anunciados.
Não é difícil de se supor, para quem acompanha minimamente de perto essas “micro-mobilizações” em reação à violência, nos últimos anos, que um encontro desses não cai do céu. É certamente resultado de um acúmulo dos últimos anos.
A querida e brilhante Silvia Ramos é uma otimista, no melhor dos sentidos, e viva ela por esses toques.