A república do rabo preso

Atila Roque

O sistema político brasileiro a cada nova crise ou escândalo parece ter chegado ao limite do suportável. Esmiuçados pela grande mídia nos seus detalhes mais escabrosos, ridículos e criminosos, vivemos sempre sob a impressão de que chegamos ao fundo do poço. Mas não, passado algum tempo, a atenção se move para outro escândalo. A memória coletiva brasileira parece sofrer de mal estrutural,  pois sendo incapaz de fixar o tempo mais longo, satisfaz-se com a execração  – quase sempre desacompanhada de punição – momentânea dos personagens do escândalo da vez.

E assim a “lusitana roda” e as verdadeiras assombrações que povoam o mundo político  brasileiro só descansam quando morrem, quase sempre velhos, ricos e impunes. Basta uma rápida olhada ao redor para se deparar com gente que há décadas frequenta a crônica quase policial na qual se transformou a cobertura política no Brasil, mas  que seguem poderosos e influentes, a desmoralizar a cada dia a democracia tão duramente conquistada. Aqui, ao contrário de outros lugares, ninguém morre de vergonha…

O que nos salva do enfarto ou do ataque de apoplexia ao ler os jornais ou assistir ao noticiário televisivo é o humor: os Veríssimos e os CQCs da vida, que execram e expõem a estética ridícula e a pouca vergonha na cara de políticos, autoridades e celebridades menores que povoam o mundo do poder.

A grande mídia, sem pudor ou desconforto, cumpre simultaneamente o papel de revelar e acobertar, esclarecer e confundir, a medida em que também expressa, em boa medida, interesses privados que se locupletam (sempre quis usar essa palavra tão ao gosto da retórica política brasileira) com os recursos públicos. E assim seguimos, nessa nossa verdadeira “república do rabo preso”, onde a real “dívida pública” paga pontualmente é aquela que governantes, parlamentares e outros devem aos que sustentam os esquemas corruptos, o financiamento milionário das campanhas políticas e o negócio a qualquer preço.

A história nobre de muita gente está indo para a lata do lixo toda vez que um presidente com a “trajetória” (outra expressão de tom épico que povoa a retórica política brasileira) do Lula tem a pachorra de nos lembrar, lá do Casaquistão, que o Excelentíssimo Senador José Sarney não pode ser tratado como “uma pessoa comum”.  Ou reclama do “excesso de fiscalização” sobre as obras do governo.

Ou alguém pode levar a sério o presidente dizer que o problema do Brasil é o excesso de fiscalização?

Mas não vamos desistir. A democracia não anda bem das pernas, mas a sua ausência é muito pior.  E tudo bem, como diz o ditado popular, “deixa estar jacaré”,  li no jornal que hoje é dia de Festa Junina na moradia presidencial. Assim posso torcer para que alguns rabos saiam devidamente chamuscados ao pularem a fogueira. É pedir muito?

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One Comment on “A república do rabo preso”

  1. Lucídio Says:

    O Brasil ainda vai ter uma Operação Maos Limpas I…II…III

    Abraço,

    L.


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