A cotas da discórdia

Só há o pós, depois do antes. Só se chega, depois da caminhada. Só se reúne o que esteve separado. Entender a diferença não é querê-la, pode ser o oposto. A imprensa brasileira, tão capaz de ver as desigualdades raciais dos Estados Unidos, tão capaz de comemorar um presidente negro, prefere, em constrangedora maioria, o silêncio sobre a discriminação no Brasil.

Lendo certos artigos, editoriais e escolhas de edição sobre a questão racial no Brasil, me sinto marciana. Sobre que país eles estão falando, afinal? Com que constroem argumentos e enfoques tão estranhos? Por que ofender com o espantosamente agressivo termo “racialista” quem quer ver os dados da distância entre negros e brancos no Brasil? Não é possível estudar as desigualdades sem pesquisar as diferenças entre os grupos. Não se estuda sem dados. No Brasil, há quem se ofenda com a criação de critérios para levantar os dados de cor como se isso fosse uma ameaçadora “classificação racial”. (Míriam Leitão, O Tom da Cor)

As palavras acima foram escritas pela jornalista Míriam Leitão na abertura do artigo O Tom da Cor, publicado em novembro de 2008. Nada mais atual nesse momento em que a acatação de uma liminar de inconstitucionalidade apresentada pelo deputado Bolsonaro Filho  reacende de maneira impressionante o coro de uma nota só que passou a dominar a grande mídia em relação ao debate das cotas. O artigo da Míriam, publicado originalmente na sua coluna díaria do O Globo e reproduzido no blog da colunista, vale ser relido por cada uma das suas linhas.

Atila

Explore posts in the same categories: Mídia, Racismo, Sociedade

Comment: