Obama e a Democracia Americana
Atila Roque*
Assisti na CNN a cobertura da posse de Obama. Por razões de saúde acabei impedido de realizar a viagem já marcada há meses para estar em Washington a partir do dia 18 e assistir a cerimônia de posse no dia 20. Um momento histórico perdido que terei para contar aos meus netos, se vivo estiver até lá, naturalmente. Contar que quase estive na posse do primeiro presidente negro dos EUA, mesmo que não seja esta a marca da campanha e muito menos da trajetória política de Barack Hussein Obama. Reduzí-lo a um presidente negro é empobrecer a sua grandeza. Mas não deixa de ser inevitável a emoção de ver aquela linda família entrar na Casa Branca, construída pelo trabalho dos escravos. Um dia histórico para nunca mais ser esquecido.
Mas o que se encontra em jogo não é pouca coisa. A herança de Bush é realmente maldita. Duas guerras desastradas, a corrupção de princípios essenciais à democracia americana, a tortura transformada em política de estado, os EUA transformados em quase um pária internacional e, finalmente, uma crise econômica decorrente da ganância estimulada pelo consumo predatório e insustentável de uma classe média, que achava que tinha chegado ao paraíso dos juros eternamente baixos e dos imóveis infinitamente valorizáveis. O tombo era previsto há anos por todos os economistas sérios, mas ninguém ouvia. O som das roletas do cassino financeiro levou ao êxtase os drogados pela ciranda financeira. Os desdobramentos e resultados desta crise, que já se mundializou, ainda são imprevisíveis e, certamente, é o primeiro grande desafio do novo presidente.
No entanto, estou convencido que a tarefa mais ousada e a herança mais duradoura de uma administração Obama encontra-se em outra esfera, na da reconstrução dos valores e das qualidades da democracia americana. Já a campanha revelou, através dos instrumentos inovadores de mobilização, que existia uma vontade contida de participação política que encontrou na mensagem de Obama um veículo animador de um desejo coletivo de se orgulhar de ser americano. Mais do que político, o fenômeno Obama precisa ser estudado pelo seu impulso renovador da cultura política de uma sociedade em que a participação eleitoral parecia resumida ao cálculo frio de quem detinha os “estados azuis” e os “estados vermelhos”. A disputa se dava em três ou quatro estados que tendiam ora para um lado, hora para o outro. Obama desde de o início não aceitou os termos desse jogo. Ao contrário, os negou trazendo o debate para a esfera nacional e internacional, elevando o jogo eleitoral americano a um patamar condizente com a importância do país no mundo. Chegou a ser, por isso, ridicularizado pelos adversários do próprio partido, acusado de ser “demasiadamente cosmopolita”.
A pergunta que se coloca agora é como vai manter vivo este impulso de participação, especialmente dos jovens – latinos, brancos, negros, que romperam com o padrão segregacionista do jogo eleitoral e votaram em massa no Obama –, como um elemento renovador da sua administração?
A maneira como tem se comunicado no período pós-eleitoral demonstra que tem consciência do que a sua eleição representou. O sucesso dessa estratégia é o que pode recolocar os Estados Unidos como um ator importante do debate sobre a democracia moderna. Seria bom que as forças progressistas, democráticas ou de “esquerda” se dessem conta do quanto isso é importante e renovassem o velho discurso anti-americano. É preciso buscar naquela sociedade as alianças que precisamos para realizar, em escala global, a revolução dos valores e da cultura, que nos salvará do desastre para o qual o capitalismo predatório e sem limites nos leva. Pela primeira vez em muitos anos temos com quem conversar nos Estados Unidos. Não podemos desperdiçar esta oportunidade.
* Historiador e Diretor do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos)
