Imprensa e democracia

No artigo Metafísica del periodismo, o autor afirma que:

O jornalismo é um caldo espesso que enche cada vão da nossa consciência com sua trivialidade, sua ética do desejável e seu rancor. Não se trata de um simples ofício, não é um mero instrumento técnico que retrata e divulga fatos, uma empresa comercial como tantas outras. Que suas mensagens produzam graves conseqüências políticas é apenas a expressão superficial de seu poder profundo. Trata-se de ser o definidor do socialmente verdadeiro. O jornalismo é o jurado supremo que não apenas compartilha veriditos de valor (isso conta, isso é bom, aquilo é inaceitável), como também entrega certificados de existência (isso é, isso está acontecendo, aquilo não existe).

De fato, a atividade do jornalista é lidar diariamente com a busca do que está fora do padrão, que o autor define como um enaltecimento constante da rotina. A obrigação de dar relevância constante à notícia anestesia. “Quando o insólito aparece, ninguém percebe ou chama atenção”, diz ele.

O autor constrói seu texto a partir do pensamento do filósofo e crítico literário George Steiner, para quem o jornalismo não pisa apenas na arte, mas também na política. Frágeis sustentáculos da civilização, democracia e imprensa vivem no tempo presente, somente no presente, apenas para ele. Por isso, ambos favorecem o efêmero.

O inconformismo que o jornalismo e a democracia estimulam fica sempre limitada aos confins do imediato: o escândalo da estação, a campanha do momento, o simpático da moda, o pleito ou o casamento da semana. O mundo do jornalismo e o da democracia condenam ao ridículo qualquer aposta na durabilidade.

Escrito em 2002, publicado no Letras e Libres, o texto é mais atual do que nunca em tempos eleições sem debates de idéias, mas cheias de dossiês e desesperança.

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