Fala Vovô!

Posted 19/11/2009 by Atila Roque
Categories: Cultura

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(Entrevista retirada do Blog do Geledés)

No próximo 20 de novembro será comemorado o dia da Consciência Negra no Brasil. A data serve para ‘que a população afro-brasileira faça uma reflexão sobre os seus antepassados e a busca por espaço na sociedade’, na avaliação de Antonio Carlos do Santos, mais conhecido como Vovô, líder do Ilê Aiyê. Para ele, no entanto, isso ainda é algo que está longe de acontecer. ‘Não existe um trabalho de resgate da memória de Zumbi. Até nas escolas ainda existe muita resistência dos professores, que também não estão capacitados’, diz o líder comunitário.

Em entrevista exclusiva ao Correio24horas, Vovô fala sobre carnaval, racismo, segregação, desaparecimento dos afoxés e Mohamed, o jovem de Guiné que fugiu para o Brasil em um navio com o sonho de virar jogador de futebol, e que acabou sendo adotado por Vovô. ‘Ele está bem adaptado. Está até namorando, já!’, disse o líder do Ilê Aiyê, que também comentou como está  o bloco e o terreiro Axé Jitolu após morte de Mãe Hilda. ‘Esse vai ser o primeiro carnaval sem a presença de minha mãe. A gente ainda não sabe como vai ser festejar sem ela’.

Ainda segundo Vovô, apesar de o estado baiano ser o local onde existem mais negros fora da África, ele ainda não é a terra ideal para um negro viver: ‘A Bahia continua sendo uma terra muito perversa, muito racista, e que segrega muito’. Segundo ele, essa situação desigual tem como motivo um ’ranço da escravidão’ que ’persegue’ a população afro-brasileira. ’Nós estamos um pouco acomodados, nos conformamos com muito pouco. Isso tem que mudar!’.

Com tantos debates e discussões sobre a difusão das raízes afro no país, como você vê atualmente a imagem do negro na sociedade?
Nós podemos dizer que avançamos, que o saldo está positivo. Mas não posso dizer que me sinto contemplado. Muita coisa ainda tem que ser feita. A Bahia continua sendo uma terra muito perversa, muito racista e que segrega muito. Hoje, temos muitos negros capacitados na política. Também é importante ter negros no poder, precisamos fazer nossa parte, tomar mais gosto pelo poder, pois ainda temos aquela coisa do ranço da escravidão que nos persegue. Veja o Ilê. Quando surgiu, causou um alvoroço muito grande, e até hoje nós somos referência. E é isso que é preciso, lutar mais. Nós estamos um pouco acomodados, nos conformamos com muito pouco. Isso tem que mudar.

Mas, como é esse racismo que, segundo você, ainda existe na Bahia?
O racismo é algo muito elaborado e organizado. Com o passar dos tempos, ele mudou de forma. Agora, não agridem, não usam palavras. Eles fazem ações, agem através de fachadas e temos que encontrar formas de combater isso que impede o nosso crescimento na educação e até mesmo na saúde. São várias formas sutis que aparentemente são como ‘correntes invisíveis’. Na mídia, por exemplo, eles não dão divulgam informações sobre blocos afros. Na Bahia, no Brasil, não há conflito racial porque todo mundo acha que isso está certo. A gente não consegue se unir.

Em mais de três décadas de existência, o Ilê Aiyê continua firme, enquanto outros acabaram no esquecimento e pararam de desfilar. A que você atribui esse desaparecimento?
Nos blocos Afro faltam investimentos e patrocínio. O Ilê Aiyê consegue sobreviver nessa resistência, que se deve à cumplicidade do povo, que está sempre nos acompanhando e gosta da nossa proposta. Essa cidade é racista, é desigual. Também tem a questão de não ter estrutura para conseguir se organizar.

O Ilê, hoje, é estruturado e com uma base sólida. Antes dessa consolidação, quais foram as maiores dificuldades?
Bem, o Ilê foi um bloco que desde o inicio conseguiu colocar na cabeça das pessoas que, se elas querem um bloco bom e bonito, têm que pagar. Essa história de que tudo de negro é filantrópico não existe. Vivemos em um país capitalista. Você tem que pagar funcionários, alugar trio, tem que pagar almoço, pagar porteiro, os encargos… Você não pode competir no Carnaval se sair com um ‘triozinho’ pequenininho. Somos cidadãos e precisamos ter um espaço de qualidade. Conseguimos manter essa mentalidade desde o inicio. Se não fosse isso, seria bem mais difícil. O Ilê gera negócio, emprego, renda, cursos profissionalizantes. Além do mais, Carnaval é muito caro. Precisamos ter recursos.

Neste ano, você adotou o Mohamed e impediu que ele fosse extraditado de volta à Guiné. Passados mais de seis meses, como está a adaptação dele ao país e o que mudou na vida de vocês após a adoção?
Ele está bem, está estudando, jogando futebol, que é sua paixão, mas… Ele também se apaixonou pelo Bahia, aquele falso (risos). Ele mora no Curuzu, com as tias e os primos e fica lá no Ilê, tomando curso de informática e português. Lá no Curuzu é melhor, porque tem muito mais movimento do que aqui onde moro (bairro do Iapi). Ele está bem adaptado, está até namorando, já! (risos). Ainda não conheci a família dele, mas sei que ele tem apenas um irmão gêmeo, um tio e uma avó.

Sobre o Dia da Consciência Negra, muitos negros não sabem o motivo da data, nem sequer fazem um momento de reflexão. Como você enxerga isso?
Há pouco tempo, essa data não era muito celebrada. Comemoravam mais o dia 13 de maio. Mas já passaram a reconhecer mais, tem a caminhada que sai do Campo Grande… Já estão sendo realizados mais eventos, como a peregrinação para a Serra da Barriga em Palmares, terra de Zumbi. Porém, tem gente que não tem muito conhecimento e até conseguirem mudar a representação do nome Zumbi. Muitos achavam que era uma assombração, um bicho feio, uma coisa assustadora e diziam as crianças ’se não for dormir vou chamar o Zumbi’.

Não se tem feito um trabalho de resgate da memória dele, que foi um herói nacional. O próprio governo tem que se responsabilizar a não falar de Zumbi só no dia 20 e mês de novembro. Tem que ser dito no dia a dia, nas escolas. Mas até nas escolas ainda existe muita resistência dos professores, que também não estão capacitados.

Voltando ao assunto carnaval, como estão os preparativos? Qual será o tema do bloco para 2010?
O tema vai ser Pernambuco, mas também iremos falar sobre revoluções de países africanos, o negro no poder, além de apontar alguns estados brasileiros como referências africanas, como Bahia e Maranhão. Escolhemos Pernambuco porque é um lugar que tem muitos negros e muitas manifestações do recôncavo durante o ano. Vamos trazer maracatus e bonecos gigantes, para fazer uma segunda de Carnaval muito bonita. Sem esquecer que esse vai ser o primeiro Carnaval sem a presença de minha mãe. A gente ainda não sabe como vai ser festejar sem ela, mas com certeza será um Carnaval com muito brilho.

Há quase dois meses o Ilê e a Bahia perderam Mãe Hilda. Conta um pouco da importância da matriarca e como ficou o grupo e o terreiro Axé Jitolu após a perda?
Ela era uma pessoa muito presente na minha vida e na vida do Ilê. No dia-a-dia, não fazíamos nada sem consultá-la. E ela sempre estava lá para nos dar uma orientação. Então, isso ainda é muito novo pra gente. Essa semana teve uma homenagem para o Ilê, uma Sessão Especial na Câmara dos Vereadores, em que ela também foi homenageada em um troféu. Nesse troféu, estava estampada a imagem dela. No dia do aniversário ela também foi homenageada e com certeza será homenageada no Carnaval.

 

 

Jaqueline Jesus

Posted 15/11/2009 by Atila Roque
Categories: Sociedade

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Ela foi notícia, uma excelente notícia, no Correio Braziliense de 08/11, em matéria assinada por Marcelo Abreu. Confiram e desfrutem o domingo:

“Jaqueline Jesus. Brasiliense, nascida no Hospital São Lucas, na Asa Sul. É filha de um sergipano operador de computador e de uma professora mineira de ciências. Família pequena, só tem um irmão, mais novo que ela. Jaqueline viveu a maior parte de sua vida em Ceilândia, no Setor O. Estudou em escolas com formação religiosa. Sempre foi uma das melhores alunas da sala. Gostava de artes , especialmente desenho. É funcionária da UnB, cedida ao Ministério do Planejamento. Formou-se em psicologia na universidade. Antes, porém, havia passado para química, mas desistiu no primeiro ano.

Fez mestrado — foi aprovada em primeiro lugar. Ano que vem, defenderá sua tese de doutorado no Instituto de Psicologia da UnB. Em tempo: também foi aprovada em primeiro lugar na seleção para o doutorado. Em tudo que se propôs fazer, Jaqueline se destacou como exemplo.

E daí? O que esta história tem de tão espetacular, além de revelar uma enorme capacidade de luta e conquista dessa moça? Quantos outros também não conseguiram tanto? A história de Jaqueline começa a fazer toda a diferença quando se descobre que ela nem sempre foi Jaqueline. Como? Jaqueline é uma impostora? Usou documentos de outra pessoa? Fraudou exames? Mentiu para todos o tempo todo? Nada disso. Na verdade, Jaqueline nasceu Jaques Jesus. Há um mês virou, efetiva, assumida e psicologicamente Jaqueline — uma mulher transexual (leia a matéria completa para saber mais).”

À espera de um carnaval temporão

Posted 03/11/2009 by Alexandre Brandão
Categories: Cultura

Imagine que, sem mais nem menos, os tambores resolvam inaugurar do seu jeito o tempo da destemperança, inventando com histeria de taróis um carnaval temporão, novembrino.

Com algum esforço, dará para improvisar uma fantasia mexendo e remexendo no armário, incluindo o do pai, o da mãe, o do marido, quem sabe até o do filho, mas neste caso não procure o que ali não se pode ou não se quer achar. Filhos têm fantasias do arco da velha, algumas os pais se esquecem de tê-las tido também.

Irá cair-lhe bem a roupa da Borralheira adaptada aos trópicos. Não lhe faltarão sapatinhos carregados por príncipes nórdicos, nerds, selênicos ou céticos. Nem digo a de um pirata de meia tigela: a venda num olho, mas o gancho no pé direito. O pileque tornará possível que se fique fantasiado, sem ficar fantasioso, cada um dos que se lançarem à rua no exato momento em que rufar o primeiro baticum.

Não faz mal que não estejam disponíveis os banheiros químicos, nem na festa oficial estão.

Não faz mal que a cidade esteja correndo de cá pra lá e de lá pra cá na sua hiperatividade habitual e sem norte. Deixe o trânsito congestionado digerir a fumaça, que é sua digital e nossa morte. Deixe as crianças na saída da escola espantarem-se com homens de saia e mulheres tortas de dar pena. Sopre-lhes ao pé do ouvido que isso é apenas uma das faces da alegria.

O contágio desse carnaval será homeopático. Um folião descerá de seu décimo primeiro andar trajando chapéu coco e bengala, crioulando lindamente a figura de Chaplin. Os vizinhos olharão praquilo com comichão de denunciar o meliante ou internar o trânsfuga. Porém surgirá, bem embaixo do nariz desses incautos desconcertados, uma lourinha que, traindo a lua, dar-se-á ao sol em trajes de odalisca com um nada de pudor. Sem contar um padre de araque que rezará três vezes antes de verter a primeira talagada e abraçar os pecados que só mesmo a carne sabe e ousa cometer. Quedarão conformados os caretas.

Surpresos, os porteiros tenderão a ficar, como os soldados, em posição de sentido, porém não tardará muito para inventarem danças com a vassoura, os mais sortudos, com a dama roliça do 307 e os enrustidos, com o rapagão de rua que está sempre por ali, às vezes dando conta de si mesmo embaixo do cobertor escondido durante o dia sabe-se lá onde e em cima dos jornais que não se cansam de noticiar as repetidas falcatruas, os desastres esportivos e as aberrações sociais.

Até mesmo os que, na festa de momo, preferem a serra, as águas de Minas ou o frio europeu sambarão espremendo-se nas cercanias de um trio elétrico improvisado numa ambulância cujo doente estará fantasiado (é melhor acreditar nisso) de morto.

Haverá beijos dos mais íntimos. Haverá abraços dos mais honestos. Haverá brigas; como de praxe. Haverá descobertas que, à primeira vista, assustam: um desvio de sexualidade, uma tendência ao álcool, uma queda pra vagabundagem.

Quando amanhecer, a cidade estará suja, não em demasia, e o Sorriso dará conta dela em dois tempos, inumeráveis vassouradas e não sei quantos passos no ritmo de um samba que inventa e assobia pra dentro.

lixeiro sorriso foto de daniela clark g1 okok

Ilustração sobre foto de Daniela Clark - G1

Por outro lado, a mesma cidade de todo o dia estará feliz por ter-se rendido ao imprevisto e desejará outros momentos como aquele em que a alegria mandou o baixo astral pro céu do inferno, longe dali.

As nossas tristezas

Posted 29/10/2009 by Atila Roque
Categories: Cultura, Segurança, Sociedade, Violência

Ontem conversando com uma grande amiga, especialista em segurança pública, entrei em contato com uma enorme tristeza. Uma tristeza que já tinha de certa forma sido expressa no comentário do meu amigo, irmão, escritor e poeta, Alexandre Brandão, o Xandão, no post abaixo. Ela passou os últimos dias vendo e revendo as fitas com as cenas que flagraram a chocante indiferença dos policias diante da vítima ainda agonizante, mais preocupados em predar os predadores que tinham acabado de ferir mortalmente o coordenador social do Afroreggae, Evandro João da Silva. O que ela viu e a deixou ainda mais chocada não foi apenas a frieza abjeta dos policiais diante de mais uma morte inútil.  Assistindo ao registro visual dos muitos minutos, quase uma hora, em que Evandro fica ali estendido na calçada, ela se deu conta da indiferença coletiva, patológica, que nos adormece os sentidos diante  da tragédia humana. As pessoas passam, olham e seguem, sem que ninguém se aproxime daquele ser humano no chão para verificar se ainda vive. Ninguém usa o celular para chamar imeditamente uma ambulância que, sabemos, chegou quase uma hora depois do acontecido. Ninguém derrama uma lágrima pela tragédia do Evandro, a tragédia de todos nós, no momento em que ela acontece. As circunstâncias que a cercam são um testemundo eloquente da nossa miséria existencial. Estamos nos tornando piores a cada dia se continuamos a acordar e dormir com essas tragédias como se fossem apenas um fato como outro qualquer, capaz de gerar, no máximo, mais uma tocante e necessária manifestação do Movimento Rio da Paz. Enquanto isso a polícia parece seguir o padrão de combater o terror com mais terror, levando vidas inocentes pelo caminho, a mãe de apenas 24 anos com o bebê no colo ou o menino de 15 anos que mal merece manchete nos jornais. A minha amiga, acostumada a dureza do seu ofício, contou que chorou muitas vezes diante daquelas imagens. Chorou por todos nós.

(Atila Roque, 28/10/2009)

O retorno das más notícias

Posted 22/10/2009 by Atila Roque
Categories: Segurança, Sociedade, Violência

Parecia que a onda começava a mudar e, finalmente, boas notícias começavam a surgir no noticiário da segurança pública. A Conferência Nacional de Segurança Pública (Conseg) recém realizada, as experiências das Unidades Paficificadoras da Polícia (UPPs) em algumas favelas cariocas e a premiação dos exemplos bem sucedidos da ação policial virtuosa eram sinais claros de que novos ares começavam a soprar na área da segurança pública, especialmente no Rio de Janeiro. Começava-se, inclusive, a se falar no surgimento do sentimento de “orgulho policial”,  como em outros momentos se falou de “orgulho negro” (black is beautiful) ou orgulho gay, para expressar um crescente reconhecimento do valor social de uma polícia eficiente e cidadã, capaz de agir com inteligência e sem truculência na prevenção e repressão do crime. Uma polícia que almeja ser cada vez mais parte da solução e não dos problemas.

No entanto, os episódios desta semana vieram mostrar para os que ainda se iludiam que o buraco é bem mais embaixo e que estamos longe do dia em que teremos uma polícia e uma política de segurança digna de uma democracia e de um país com as dimensões e ambições do Brasil. Os eventos chocantes de violência e caos no Rio de Janeiro que resultaram, em menos de uma semana, na morte de mais de 30 pessoas e na derrubada  de um helicóptero da polícia, revelaram a falta de coordenação e articulação das principais autoridades do Estado, o baixo preparo da polícia e a permanência de antigos vícios. Surpreendidos pela guerra do tráfico a polícia reage com ações espalhafatosas de baixa eficiência e muito violência, especialmente para as comunidades pobres diretamente envolvidas. O risco agora é o retrocesso dos movimentos ainda tímidos,  mas extremamente importantes, de civilização da ação policial, em favor da pirotecnia espalhafatosa das ações espetaculares, quase sempre acompanhadas de violência e de baixíssima eficiência no combate efetivo do crime.

E para completar as péssimas notícias dessa semana, a informação de que policiais militares que chegaram quase imediatamente à cena do trágico assassinato do coordenador social do Grupo Cultural Afroreggae, Evandro João da Silva, no último domingo, não apenas ignoraram a sua agonia, deixando de socorrê-lo logo após o assalto, mas também permitiram aos assassinos irem embora depois de negociações obscuras feitas imediatamente após o crime. A gravação recuperada das câmeras de segurança do comércio e dos prédios com as imagens indiferença dos policiais diante de uma pessoa baleada e, depois, de um dos policiais voltando para o carro com os pertences roubados de Evandro, enquanto um dos assassinos deixava o local tranquilamente, choca e causa enorme tristeza.

A maneira como as autoridades públicas responsáveis pela segurança pública vão atuar nos próximos dias será um indicador valioso do que devemos esperar daqui para a frente. Só posso sonhar que o tempo das boas notícias não tenha sido tão precocemente encerrado.

(Atila Roque, 21/10/2009)

Luis Nassif, mídias e novas tecnologias

Posted 19/10/2009 by Atila Roque
Categories: Cultura, Mídia

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O jornalista Luis Nassif é um pioneiro do jornalismo de qualidade na internet. Por isso é sempre bom prestar atenção no que ele anda dizendo sobre as tendências atuais da mídia e das novas tecnologias, como faz neste vídeo, publicado hoje no Portal do Nassif:

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Imagens de tirar o fôlego

Posted 16/10/2009 by Atila Roque
Categories: Cultura, Meio Ambiente

Fotos realmente lindas na mostra fotográfica “Floresça! Imagens da Fronteira da Conservação”, em cartaz de 15 de outubro a 9 de novembro Botânico do Rio de Janeiro, com fotos da ONG Conservancy International.

Veja a matéria do UOL e assista ao slide show.

Foto de Luciano Candisani / Conservação Internacional

Foto de Luciano Candisani / Conservação Internacional

Hoje, o que sei da poesia

Posted 09/10/2009 by Alexandre Brandão
Categories: Cultura

Gávea3

Por: Alexandre Brandão

Não me tomem por pecador, se falo fala fina e tímida, com jeito de iconoclastia. Tem dias que não estou pra Drummond, não estou pra Adélia, não estou pra Pessoa alguma. Noutros, sou eles e esqueço de mim, ou, por outra, sou o que só pra mim, de mim, dizem: podre se podre, pétreo se pétreo; líquido.

Não é sempre que me alcançam os outonais haicais, por breves. Não chego inteiro, sequer aos pedaços, pois estes esfarelam-se pelo caminho, aos épicos de cauda longa. Seduzido sou pelo ritmo, pela pegada, pelo pancadão. Olhe, por exemplo, o bumbo nocauteador do poeta Barreto (O sono provisório, pág. 11, 1978, Editora Francisco Alves):


    Vivo sobrevivente de um desastre aéreo e
    ferroviário
    que acontece todos os dias na cozinha
    onde escaldo calendários e fervo a família
    jornais e margarinas
    Tempero com cola substantivos abstratos
    como quem tenta se vingar da própria língua.

Mesmo contrita no adro da casa santa, a poesia está sempre fornicando. Às vezes, com anjos; noutras, com sono. Seu gozo não é sopa de letrinhas, não são os postergados pelas prostitutas; seu gozo é silêncio e bambeza de pernas, tracejado por um cartunista que se deixa levar pelas pontas rombudas de seus lápis.

Entendo a poesia que descomprime o tórax, permitindo assim a passagem da respiração, que fluia tranqüila e, por assustar-se, cai momentaneamente no sono. Odeio o entendimento loquaz da poesia, garganteado pelos bêbados da razão. Amo a poesia dos calafrios.

A poesia não ri de mim, não ri pra mim. Não chora de mim nem chora pra mim. A poesia caçoa do sol, conquanto o descreva em versos amarelos. A poesia nunca viu a lua, pois à noite cheira dos tatus as tocas e assiste a coito de formigas que, sob o mantô de terra, fazem o feito, o desfeito e não murmuram. As formigas não murmuram; a poesia, sim. Nisso, parece-se com as vacas e com os vasos sanguíneos do velocista que busca quebrar o recorde olímpico.

A poesia, amante, se é, não espera. Quando quer, cheira e fuma as delícias de seu vício para entrar no sonho alheio e tirar do foco as imagens que, por si só, são incompreensíveis. Desse modo faz partir pra longe a última chama memorial que o adormecido cultivava como lágrima contida. Pela manhã, ao sentar-se na cama, botar os pés no chão e começar a fazer força para erguer o corpo, o poetinha distraído e sonhador ganha no bucho de sua consciência uma gota de verso como esta:


    Pago todas as contas
    Mas comigo não conte
    Para afundar navios
    E fundear vazios
    Distintos dos meus.

A poesia é a voz que se escuta quando não há voz alguma, e os poetas são os doidos da vez — de todas as vezes.

Graciás a “la Negra”, Mercedes de Sosa

Posted 06/10/2009 by Atila Roque
Categories: Cultura, Música, Política

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Cheguei em casa hoje cedinho, antes das seis da manhã, da Tanzânia, depois de uma longa viagem, com um pernoite afetivo em Zurique, onde vive com a família meu irmão. Enquanto esperava alguém levantar fiquei a divagar um tanto sonolento e pensei, calmamente, nas notícias sobre a enfermidade e a morte da cantante argentina – pero latinoamericana, índia e chilena -, Mercedes de Sosa. Recordei com gosto a minha juventude, os meus “vinte anos blues”, como cantou Elis, na canção de Vitor Martins e Sueli Costa. A voz de “La Negra”, como era conhecida, fez parte da (minha) trilha sonora dos finais dos anos 70 e dos intermináveis anos 80. Tempos de intensa e apaixonada vocação política, indignação, vontade sincera e desinteressada de mudar o mundo, fazer a revolução: paixão pela vida e pelos vivos. Tempos de amizades enormes que duram até hoje, amores ardentes e avassaladores (acompanhados de dores de cotovelo igualmente terminais) e muita música. Lembrei encontros com amigos que já se foram, alguns tão cedo e tão desnecessariamente. Das muitas manifestações de rua, discussões no colégio e na universidade, das primeiras vitórias e também das primeiras derrotas políticas.

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Tempos em que a América Latina era para a minha turma quase somente o Chile, pois entre nós tínhamos Carlitos, Alejandro, Catalina e outros chilenos “exilados” (tinha também um boliviano, mas na confusão passava por chileno…) no Rio de Janeiro, acolhidos pela PUC e/ou por Santa Teresa, cúmplices de bebedeiras homéricas na saudosa “Cantina Bolognesa”, onde aconteciam discussões sem fim e com poucos acordos sobre a situação política no continente. E quando as cadeiras eram empilhadas e o chão escovado, a conta era invariavelmente “pendurada” para horror do Rogério, dono e maitre da Cantina, que apesar de tudo sempre nos acolhia de volta e, às vezes, ainda levava eu, Xandão, Paulinho e outros largados para tomarmos uma última dose no seu apartamento. Todos chorávamos e cantávamos -  com o Paulinho ao violão, nosso irmão músico mais doce e talentoso – com o canto de Mercedes, a “chilena”, amiga de Violeta Parra e parceira de Milton Nascimento, entre outras, em “Volver a los 17″. Éramos sim perdidamente românticos.

Senti, pois, um misto de tristeza e alegria, um agridoce típico de especiarias culinárias, uma saudade feliz do bom tempo que tive a sorte de viver e que tanto faz parte do que eu sou. Por isso deixei, caso ainda faça sentido, para falar dos últimos dias em Dar es Salaam e na Tanzânia em um outro momento e dedicar este post à “La Negra” e às paixões e amizades que persistem no tempo, mesmo quando este insiste em passar…

(Atila Roque, 06/10/2009)

Mikumi National Park

Posted 01/10/2009 by Atila Roque
Categories: Internacional

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A viagem a Morogoro foi longa e cansativa, mas valeu o esforço. E uma das razões se encontra brevemente resumida neste vídeo. É o máximo que consigo depois de quatro horas de estrada de volta a Dar es Salaam. E o amor da Shirley pelos hipos merecia esse registro…

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