Charge do Chico na capa do O Globo de sábado, 04/07/2009…
Enfim, a síntese dos tempos de atrasada engenharia genética vividos pela política brasileira!


Sílvia Ramos, do CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), enviou a uma lista de amigos, no dia 29, um relato emocionado e emocionante do que presenciou durante a “Conferência Livre de Segurança Pública da Maré”. É o relato de um dia muito especial, parafraseando o belo filme de Ettore Scola, onde a cidade síntese de todos problemas possíveis mostra que também é capaz de produzir encontros extraordinários.
Obrigado Sílvia!
Atila Roque
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Queridos amigos,
Escrevo para fazer um relato de um dia fora do comum. Acabo de chegar da Conferência Livre de Segurança Pública da Maré, a primeira conferência livre de um bairro do Rio de Janeiro no contexto da Conseg (Conferência Nacional de Segurança Pública).
Para minha surpresa, verifiquei que estavam presentes nada menos que 185 pessoas formalmente inscritas, entre moradores da Maré, lideranças comunitárias, ativistas de direitos humanos, pesquisadores, além do comandante do 22º Batalhão da Polícia Militar, coronel Seixas, a capitão Pricilla, que comanda o policiamento comunitário do Santa Marta e o coronel Seabra, que comanda as comunicações da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Além desses, muitos amigos da Redes da Maré e das outras entidades que convocaram a conferência livre passaram por lá o dia todo. Inclusive um grupo de franceses vindos do município da periferia de Paris, Virth-Sur-Seine, que anotavam cada frase entre boquiabertos e incrédulos.
Tudo ocorreu no Centro de Artes da Maré, o belo e grandioso espaço que Lia Rodrigues e seu grupo de dança e arte, juntamente com a Redes da Maré, ergueram dos escombros de um velho galpão, numa das entradas da favela Nova Holanda, no conjunto de favelas da Maré.
As fortes emoções começaram pela manhã bem cedo, quando traficantes reagiram à presença de veículos e do forte efetivo da Polícia Militar com tiros dirigidos ao local onde se realizaria a conferência. Tudo se acalmou rapidamente, quando os traficantes perceberam que não se tratava de uma invasão, mas de um debate. A tensão, contudo, perdurou por um tempo até a abertura.
Eliana Silva, diretora da Redes da Maré, abriu os trabalhos com uma explicação da importância histórica da participação da Maré na Conferência Nacional de Segurança Pública: “a Maré vai levar suas propostas, nós queremos ter voz em Brasília”. ”Por isso estamos cumprindo os procedimentos de uma conferência livre”, explicou Raquel Willadino, do Observatório de Favelas. Miriam Guindani e Julita Lemgruber fizeram ótimas exposições sobre o sistema de justiça criminal, o controle externo da polícia e sublinharam a importância do encontro. O tom da abertura e a ênfase no diálogo deram o mote do dia: “todos que estão aqui são bem-vindos. Não queremos preconceitos, queremos o diálogo e vamos debater tranquilamente nossas opiniões sobre segurança pública, que é um tema que nos afeta diretamente”, disse Eliana.
Ao longo do dia o que se viu foi quase um milagre: grupos de 30 a 40 pessoas discutiam de forma muito organizada pontos dos eixos temáticos e anotavam suas conclusões em grandes cartolinas. Os grupos tinham a cara da diversidade total, gente de favela, do asfalto, da cultura, da militância, da polícia, da academia.
O almoço, preparado pela famosa “Galega”, da Maré, arrasou, com cinco opções, que iam da carne de sol ao estrogonofe, vários tipos de feijão, cuscuz, farofa e fartura nordestina total.
Bira, o fotógrafo da Escola de Fotógrafos Populares, mostrava em sua câmera uma das centenas de fotos que bateu ao longo do dia; o coronel Seabra inclinado se servindo no balcão da Galega ao lado do Robson, da Rocinha e do Viva Rio e de outras lideranças da Maré. Bira me disse: “vem ver: democracia é isso”.
Na mesa de almoço em que estava o coronel Seabra se sentaram Marcia Jacinto, que teve seu filho assassinado em 2002 e que investigou o crime por contra própria e provou que ele fora assassinado por policiais, que hoje estão presos (Marcia ganhou o prêmio Faz Diferença do Jornal O Globo de 2008), Patrícia Oliveira, irmã do Wagner, da Candelária, da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência e outras ativistas que eu não conhecia. Seabra, Seixas e Pricilla, os policiais, tinham participado do mesmo grupo de debates que Márcia, Patrícia e outras 30 pessoas antes do almoço e a despeito das diferenças, o que se viu naquele e nos outros grupos ali na Maré é que o diálogo – milagre – é possível.
O mais incrível do Rio é que essas coisas, essas cenas inesperadas, essas viradas de página se dêem exatamente na Maré, ali onde t-o-d-a-s as dificuldades, barreiras, tabus, preconceitos teriam tudo para ser maiores do que são em qualquer lugar. Ali onde é mais difícil reunir pessoas para “discutir segurança publica” do que em Copacabana, Barra da Tijuca ou Botafogo, com suas mil opções de locais seguros e tranquilos. Ali na Maré, onde a Conferência Livre começa com tiros e acaba com diálogos imprevisíveis e inusitados… isso também é o Rio. E isso é histórico.
Graças à coragem da Eliana e do monte de gente corajosa, criativa e ousada que ela lidera hoje no Rio de Janeiro.
Um abraço,
Sílvia
Atila Roque
O sistema político brasileiro a cada nova crise ou escândalo parece ter chegado ao limite do suportável. Esmiuçados pela grande mídia nos seus detalhes mais escabrosos, ridículos e criminosos, vivemos sempre sob a impressão de que chegamos ao fundo do poço. Mas não, passado algum tempo, a atenção se move para outro escândalo. A memória coletiva brasileira parece sofrer de mal estrutural, pois sendo incapaz de fixar o tempo mais longo, satisfaz-se com a execração – quase sempre desacompanhada de punição – momentânea dos personagens do escândalo da vez.
E assim a “lusitana roda” e as verdadeiras assombrações que povoam o mundo político brasileiro só descansam quando morrem, quase sempre velhos, ricos e impunes. Basta uma rápida olhada ao redor para se deparar com gente que há décadas frequenta a crônica quase policial na qual se transformou a cobertura política no Brasil, mas que seguem poderosos e influentes, a desmoralizar a cada dia a democracia tão duramente conquistada. Aqui, ao contrário de outros lugares, ninguém morre de vergonha…
O que nos salva do enfarto ou do ataque de apoplexia ao ler os jornais ou assistir ao noticiário televisivo é o humor: os Veríssimos e os CQCs da vida, que execram e expõem a estética ridícula e a pouca vergonha na cara de políticos, autoridades e celebridades menores que povoam o mundo do poder.
A grande mídia, sem pudor ou desconforto, cumpre simultaneamente o papel de revelar e acobertar, esclarecer e confundir, a medida em que também expressa, em boa medida, interesses privados que se locupletam (sempre quis usar essa palavra tão ao gosto da retórica política brasileira) com os recursos públicos. E assim seguimos, nessa nossa verdadeira “república do rabo preso”, onde a real “dívida pública” paga pontualmente é aquela que governantes, parlamentares e outros devem aos que sustentam os esquemas corruptos, o financiamento milionário das campanhas políticas e o negócio a qualquer preço.
A história nobre de muita gente está indo para a lata do lixo toda vez que um presidente com a “trajetória” (outra expressão de tom épico que povoa a retórica política brasileira) do Lula tem a pachorra de nos lembrar, lá do Casaquistão, que o Excelentíssimo Senador José Sarney não pode ser tratado como “uma pessoa comum”. Ou reclama do “excesso de fiscalização” sobre as obras do governo.
Ou alguém pode levar a sério o presidente dizer que o problema do Brasil é o excesso de fiscalização?
Mas não vamos desistir. A democracia não anda bem das pernas, mas a sua ausência é muito pior. E tudo bem, como diz o ditado popular, “deixa estar jacaré”, li no jornal que hoje é dia de Festa Junina na moradia presidencial. Assim posso torcer para que alguns rabos saiam devidamente chamuscados ao pularem a fogueira. É pedir muito?
Uma caminhada no Jardim Botânico equivale a uma sessão de yôga, ou de yoga como se dizia no tempo em que eu não sabia exatamente que sexo poderia gerar filhos — sabia, mas não acreditava.
Uma caminhada no Jardim Botânico num dia não muito ensolarado, tampouco fechado, pode deixar — na memória que teremos no futuro, quando nossos filhos, filhos de nossas relações sexuais ou não (pois hoje já não se faz filho apenas com relações sexuais), forem eles mesmos senhores e senhoras com vidas próprias e, se Deus quiser, independentes e bem encaminhados — algum gostinho de felicidade na gente tão carregado, que poderemos mesmo imaginar que fomos, dentro e fora do Jardim Botânico, felizes, completamente felizes.
Pisar descalço o chão do Jardim Botânico, como vi um jovem fazendo no último domingo em que estive por lá, deve ser o grito mais veemente que conseguimos dar contra a tendência do mundo em nos distanciar da terra, do fogo, da água e do ar. Aquele rapaz, garanto sem conhecê-lo, sabe ser feliz quando quer: basta tirar os sapatos e pisar a terra úmida do parque.
Sentar num banco do Jardim Botânico numa manhã de maio, em pleno domingo das mães, ao lado da irmã pode apaziguar as dores que sozinhos, o irmão e a irmã, não suportariam mais ter. As árvores dali, estrangeiras e nacionais, entendem dessa coisa de despoluir até o espírito mais sombrio.
Depois de uma caminhada que levou o desempregado à estufa das plantas carnívoras e a debutante, um pouco cansada, à beira do lago das vitórias-régias, pequena e elegante peça de metal bem aducido e corretamente coado, a bica dará água fresca a quem já tem, a sua volta, toda espécie de sombra. Não vai nesse gesto do bebedouro nenhuma intenção de iludir o desempregado ou a jovem pensando-se vítima do maior cansaço do mundo, mas, fresca e fluida, a água ensinará sem querer que a generosidade mata a sede quando não escorre pelas mãos.
Pais e filhos, concebidos ambos na brasa do desejo ou na assepsia dos laboratórios, jogam folhinhas no riacho e vão correndo ao lado acompanhando aquela corrida de Fórmula 1 vagarosa e vegetal. Há uma bateria, depois uma segunda, e haverá outras até que a criança saia dali campeã. No Jardim Botânico, a simplicidade é sempre verde e imatura.

Vez ou outra um estudante de artes plásticas errará a mão e não tracejará nada que se assemelhe ao que está por todo o lado.
Vez ou outra o chão ficará enlameado. Vez ou outra alguma árvore o vento derrubará. Vez ou outra os esquilos cairão viciados em pipocas. Vez ou outra um estudante de artes plásticas errará a mão e não tracejará nada que se assemelhe ao que está por todo o lado. Por fim, poucas fotografias tiradas ali, aos milhares ou milhões, em alguma contagem do tempo não muito dilatada, terão a qualidade que o parque merece.
Vez ou outra um cronista menor compreenderá o mundo dinâmico que, entre ramagens, águas, pessoas e aves, o silêncio do parque guarda.
Atila Roque*
(Publicado originalmente no Blog do Inesc)
A repercussão da decisão judicial que suspendeu o sistema de cotas no estado do Rio de Janeiro deixou em evidência o quanto é vergonhoso o massacre da mídia contra as políticas afirmativas. O debate foi simplesmente silenciado. Os contra as cotas, falam sozinhos, nem precisam mais enfrentar o contraditório; acusam, classificam, interpretam, fazem a caricatura do outro lado e dominam os principais meios de comunicação. Quando editores se dignam a dar uns dez segundos de espaço televisivo a alguém favorável escolhem a dedo a pior declaração, a mais estereotipada e virulenta, aquela que melhor “prova” o quanto os opositores tem razão em dizer que os defensores das cotas vão criar a divisão e o ódio racial.
Tudo isso a despeito de todas as avaliações qualitativas feitas até agora provarem justamente o contrário: as cotas trouxeram a diversidade para espaços universitários até então reservados majoritariamente a uma minoria advinda das escolas particulares de boa qualidade (e custo elevado) e de cor branca. Nem sinal do ódio e do “conflito racial” acenado como resultado inevitável de uma “racialização” tão temida por alguns. Assim como as avaliações também comprovam a excelência do desempenho acadêmico de alunos e alunas cotistas.
Uma boa parte dos críticos dessas políticas afirmativas nem se dá mais ao trabalho de discutir políticas públicas de igualdade e o quanto as cotas se prestam ou não a redução das disparidades sociais decorrentes do racismo insidioso e envergonhado presente na sociedade brasileira. Preferem repetir ad nauseum o mantra das políticas universais e a estigmatizar os estudantes cotistas como usurpadores do “direito” de outros. No embalo, aproveitam para retomar o elogio centenário da mestiçagem e da natureza residual do racismo no Brasil. E assim, simplesmente, descartam décadas de pesquisas que mostram justamente o contrário.
Buscam ainda desqualificar como sendo meros repetidores de modismos externos ou, pior, oportunistas financiados pelas fundações internacionais, movimentos sociais, intelectuais, artistas e outros segmentos da sociedade há mais de 60 anos engajados na luta antirracista no Brasil. Espero apenas que consigamos sair íntegros desse clima de “guerra santa” e trazer o debate para o campo da crítica racional e dialógica sem a qual é impossível avançar no aprimoramento das políticas sociais.
Finalmente, voltando à mídia, acho legítimo que os grande meios de comunicação tenham opinião e deixem claro o que pensam sobre assuntos importantes. Mas isso não lhes dá o direito de suprimir o debate sobre um tema que, sabemos, as pesquisas sérias demonstram, divide a sociedade brasileira.
Somente em uma democracia ainda precária como a nossa isso não causa escândalo. As raízes autoritárias do Brasil são muito mais profundas do que a sua aparência deixa vislumbrar. Sobrou para o consumo da audiência apenas a histeria e o sensacionalismo dos que veem fantasmas e monstros embaixo da cama. E de passagem engordam os egos de alguns que se aproveitam ao máximo para desfrutar do “momento celebridade” gentilmente cedido pela mídia.
Só há o pós, depois do antes. Só se chega, depois da caminhada. Só se reúne o que esteve separado. Entender a diferença não é querê-la, pode ser o oposto. A imprensa brasileira, tão capaz de ver as desigualdades raciais dos Estados Unidos, tão capaz de comemorar um presidente negro, prefere, em constrangedora maioria, o silêncio sobre a discriminação no Brasil.
Lendo certos artigos, editoriais e escolhas de edição sobre a questão racial no Brasil, me sinto marciana. Sobre que país eles estão falando, afinal? Com que constroem argumentos e enfoques tão estranhos? Por que ofender com o espantosamente agressivo termo “racialista” quem quer ver os dados da distância entre negros e brancos no Brasil? Não é possível estudar as desigualdades sem pesquisar as diferenças entre os grupos. Não se estuda sem dados. No Brasil, há quem se ofenda com a criação de critérios para levantar os dados de cor como se isso fosse uma ameaçadora “classificação racial”. (Míriam Leitão, O Tom da Cor)
Apenas 23 minutos, nada mais, assistam…

Crédito das fotos: EP - O Globo. TZ - Divulgação do filme Fabricando Tom Zé.
, e o leitor lucrou com isso. Não era boa, ou melhor, poderia até ter sido, o assunto leve e carioca ajudava, mas o resultado foi pífio.
Ela sairia na Folha Carioca à época da última eleição municipal, entretanto meu senso crítico, quase nunca apurado, interrompeu o processo no momento exato em que a mão apertaria a tecla enter lançando como um foguete a crônica bem no colo do editor.
Na falecida, eu lançava uma candidatura alternativa. Uma chapa com a nata da música popular brasileira, tendo à frente Paulinho da Viola como candidato a prefeito e Chico Buarque na qualidade de postulante ao cargo de “secretário municipal do Vai dar Merda”. Além deles, estavam lá: Clementina de Jesus, Tom e Vinícius, Elis Regina, Lenine, Guinga, Gismonti, Cartola, Nelson Sargento, Joyce, Dorival Caymmi, Pixinguinha, Zélia Duncan etc. Enfim, velha e jovem guardas, mortos e vivos ocupando os postos monopolizados por políticos e por amigos de políticos.
Veio a eleição, “Dudu da Ordem” virou prefeito, esqueci a crônica, e o tempo não parou. Fui assistir a “Palavra (en)cantada”, filme de Heloisa Solberg, e sofri um abalo: em minha crônica enterrada, não havia reservado nenhum cantinho para o Tom Zé. Alguns dirão: ele não mora no Rio. Eu mesmo poderia tentar me salvar dizendo que Tom Zé é tão grande que prefeitura é pouco pro bico dele.
E de fato é. Tom Zé deveria ser presidente do Brasil; imperador até. Precisamos de um maluco lúcido do naipe dele. Além do mais, o tropicalista já está com bastante idade, o que, no meu ponto de vista, é condição sine qua non para a habilitação ao cargo maior da república ou da monarquia.
Passados mais de cem dias da vitória de “Dudu da Ordem”, temos visto o novo prefeito mandando ver ou, por outra, mandando para ser visto. Conhecido meu conta de uma amiga dele que vendia roupas ali no Catete havia bem uns vinte anos. A senhorinha de seus sessenta, setenta anos se viu, da noite para o dia, transformada em perigosa fora da lei. Antes, ela se pensava informal, soube que era bandida. Fecharam sua tenda.
Li que, na Gávea, um morador foi agredido pela Polícia Municipal, que “zelava” pela derrubada de um imóvel irregular e sentiu-se ameaçada por um homem caminhando com seu cachorro.
Estão propondo a construção de muros nos limites das favelas. (Discussão interessante a esse respeito Sérgio Besserman propõe em seu blog no Globo on line.) Fala-se em conter a expansão com o objetivo de não danificar o meio ambiente. Chama o urubu de meu louro, chama!
Poderia listar mais um monte de ações cujo objetivo é atacar a consequência sem melindrar a causa. Eu me pergunto: “Dudu da Ordem” está à ordem de quem?
Resta-me, nessa altura do campeonato, rezar para que o prefeito eleito erre, mas não peque. E enquanto vai flanando nos ares do poder, Tom Zé bem que poderia cantar pra ele assim:
“Dorme, dorme
Meu pecado
Minha culpa
Minha salvação.” (Mãe, Tom Zé e Elton Medeiros)
Ou então:
“Menina, amanhã de manhã
quando a gente acordar
quero te dizer que a felicidade vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens.” (Vai, dos mesmos Tom e Elton)
Junia Puglia*
Está no ar um anúncio na televisão que pergunta se você conhece alguém que desperta feliz, de madrugada, que não fica de mau humor e nunca reclama de não ter tempo pra si mesma. É a sua mãe, claro! Então, dê um celular pra ela no dia das mães, como recompensa por ter deixado de ser humana.
A gente sabe que o objetivo da publicidade é nos apresentar um mundo perfeito, onde tudo é lindo e funciona bem, mas tem que ter alguma conexão com a realidade, senão a mensagem não seduz. O anúncio está simplesmente reforçando uma ideia muito disseminada entre nós de que as mães são abnegadas por natureza, disponíveis, dedicadas, carinhosas e sempre dispostas a renunciar a tudo pela felicidade dos filhos. Se a mulher não era assim antes, passa a ser, instantaneamente, quando se torna mãe, mesmo que a maternidade não tenha sido uma escolha.
Mas eu sou capaz de apostar que todo mundo, incluindo você e eu, conhece muitas mães que não correspondem a esse modelito. E não porque sejam incompetentes ou inadequadas, mas porque são gente. Acontece que, por razões históricas, culturais e religiosas muito antigas, a maternidade está envolta numa aura de santidade, suavidade e disposição permanente para o sacrifício, que é pura mentira. Mas as pessoas gostam de acreditar em mentiras antigas. É conveniente e reconfortante.
Vamos combinar: acordar de madrugada todo dia pra despertar os filhos pequenos (ou nem tanto) e aprontá-los para a escola, que, via de regra, começa às sete da manhã, pode ser tudo menos uma grande alegria. E manter o bom humor com criança chorando, adolescente abespinhado e falta de colaboração do lado masculino da história é uma façanha conseguida por muito poucas.
Ocupar-se totalmente dos filhos, quando não está ocupada no trabalho ou dormindo, é quase sempre inescapável, porque o dia tem as mesmas vinte e quatro horas pra todo mundo. Além disso, há muitas mães que se agarram a essa escassez de tempo pra impossibilitar o cuidado de si mesmas. Uma boa mãe deve dar total prioridade às necessidades dos outros: filhos, marido, pais idosos, familiares doentes, os bichos da casa e o que mais aparecer no cenário familiar precisando de cuidados.
Lembrar que mães – as nossas, as dos nossos filhos e as dos outros – são pessoas com temperamentos, desejos, preferências, expectativas e necessidades tão variáveis quanto o próprio gênero humano, pode nos levar a questionar e, quem sabe, descartar essas bobagens. E, a partir daí, estabelecer com elas relações mais maduras e verdadeiras e, portanto, menos idealizadas.
Estou mexendo num vespeiro, eu sei. Mas não consigo evitar de observar as coisas à minha volta com esse olho demolidor, que às vezes me dá uma dor de cabeça danada.
Ah, e antes que eu me esqueça, mãe trepa, sabia?
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* Junia Puglia trabalha no Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM)
Júnia Puglia

A tristeza da perda e a imbecilidade do dia a dia
(Publicado hoje no blog de Gerald Thomas)
New York- Não posso dizer que não fiquei triste com a morte do Boal. Óbvio que fiquei. Fiquei triste com a morte de um artista. Quantos deles temos hoje em dia? Poucos.
Muito poucos.
Se você liga a televisão ou vai ao cinema pode medir: vai ouvir a palavra KILL ou MATAR ou MORRER a cada 3 minutos (se não mais) e o Ibope exige que os programas sejam baseados na vida e na relação polícia versus bandido e os procedimentos legais: são milhares de programas, em milhares de formatos. Na política é a mesma coisa. A retórica é a mesma.
Pontes explodem, carros explodem, pessoas explodem. Raramente nota-se que já existiu uma sinfonia como a de Mahler, a SEGUNDA, a Ressureição, para ser mais preciso. Poucas vezes a mídia, seja ela qual for, nos remete a uma sinfonia de Beethoven ou a uma ópera da Wagner. Não há mistérios! É a violência que dá audiência mesmo. E, se não é a violência bruta, a crassa, então é o melodrama barato, estúpido. E se não é isso, somos consumidos pela notícia do PÂNICO (como o terror da gripe suína e outras coisas do tipo. Nossa vida sempre em “perigo de vida” e a tal chamada guerra dos mundos, que Orson Welles tão magnificamente satirizou pelo rádio). Ah…
Boal morreu. Seu Teatro do Oprimido não era a “minha coisa”. Mas faz pensar. Faz pensar o que ele pensava sobre seu teatro. E isso não é pouco. E nos faz pensar sobre a vida, ou melhor, a morte. Os grandes artistas, ou melhor, a ARTE GENIAL, como a de Mahler, como a de Beckett, como a de Joyce ou a de Gogol, Tolstoy ou Conrad ou seja lá qual for seu autor predileto, faz pensar sobre a morte: como deve ser, como somos imbecis com nossos valores materiais aqui nesta terra. Claro, Goethe e seu Fausto, assim como Marlowe e seu Fausto. Shakespeare e as comédias trágicas e as tragédias trágicas ou as moderadas.
O sistema nos traiu. Sim, fomos traídos. Somos todos cornos! Estamos vivendo há uma década, ou mais, sob falsas pretensões e sob falsos valores esperando um messias.
Somos uns imbecis achando que o dia de amanhã será melhor porque o politico A, B, ou C nos salvará da crise absoluta do sistema vigente. Não nos salvará.
E Boal nisso tudo? Bem, Boal tinha suas convicções. Podia não me convencer com seu teatro “em prática”, mas ele já previa e já cantava essa bola há muito tempo. Qual bola? A de que somos cornos de um sistema que nos trai. Mas ele, diferente do Living Theater, diferente dos outros que cantavam a mesma bola, levou seu teatro pro lugar do consumo: o supermercado, ou o lugar onde se consumia aquilo que o sistema martelava na gente! Teatro de Martelo! Um ensaio permanente e inocente (até) de como fazer de corno um sistema que nos faz de corno. Boal estudou aqui na Columbia University e fez grandes amigos. Mas era outra era, outro tempo.
Esse tempo hoje:
Um bando de imbecis tweetando, ou twitando, como preferirem, achando que estão na “última”, exacerbando o ego e elevando o seu anonimato berrando pros oito cantos do mundo o “nada” do que fazem todos os dias. Que lindo! Já o teatro do invisível de Boal já cantava a bola justamente desse invisível ou desse oprimido (que somos nós, todos nós. Não necessariamente se fala de uma CLASSE, e sim de um estado de ser).
A Arte volta a fazer parte de nossas vidas e de nossas lágrimas. Tentei resistir e não escrever, pois não gosto de escrever emocionado. Augusto Boal morreu e com a morte dele se percebe que morreu um artista.
Isso deixa a ARTE num estado de fragilidade. Ou com a imunidade baixa, fraca.
O mundo não é feito, mas “está” feito de programas que trivializam a alma, que derrubam o ser humano para um lugar onde ele não merece estar: a sua pior ignorância.
É isso. Escrevo pois pesa o peso da M.O.R.T.E. e, nesses dias de angústia, a falta de um ser que construiu um vocabulário teatral é realmente triste. Muito triste.
Quantos construíram um vocabulário teatral?
Quantos sequer “pensaram” sua arte?
Estamos sendo traídos pelo sistema: talvez seja hora de pararmos de nos acusar uns aos outros e pensarmos na CENA de ORIGEM. Sim, aquela que os filósofos invocam quando têm de enfrentar a GRANDE CRISE, ou melhor, GRANDE ARTE, ou seja: a morte!
Gerald Thomas, 3 de Maio de 2009.