Políticos e instituições defasados no tempo

Posted 21/12/2009 by Atila Roque
Categories: Internacional, Meio Ambiente

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Talvez a maior lição da Conferência de Copenhague tenha sido demonstrar definitivamente  o enorme descompasso entre os problemas que a humanidade enfrenta e as instituições com a qual contamos para resolvê-los. O senso de urgência que parece cada vez mais evidente às pessoas comuns não é capaz de sensibilizar os organismos internacionais.  A ONU saiu perdendo mais uma vez. E as lideranças mundiais carecem da grandeza e da visão política  que seriam necessárias nesse momento crucial da história humana.

Um dos momentos mais simbólicos do fracasso de Copenhague foi o gesto desesperado da pequena ilha de Tuvalu que conseguiu paralisar as negociações por algumas horas exigindo compromissos mais efetivos em relação a redução das emissões e limites para o aquecimento global. A tragédia anunciada de Tuvalu, fadada a desaparecer sob as águas do Pacífico,  não foi capaz de comover os milhares de delegados oficiais e os chefes de estado presentes na COP 15.

O imediatismo e os interesses econômicos prevaleceram. Estados Unidos e China uniram-se em torno de um pacto medíocre que adia decisões e estica a corda do planeta quase ao ponto de ruptura.

O Brasil conseguiu se sair bem graças ao instinto político do Presidente Lula que fez um discurso contundente na reta final da conferência, rompendo com o falso consenso do G77, como tinha feito antes Tuvalu. Com isso, felizmente, temos o que cobrar no Brasil.

Mas a pegada ecológica deixada por delegados advindos do mundo inteiros por via aérea, as centenas de jatinhos particulares e aviões oficiais, inclusive o Air Force One e o do Presidente Lula, sem falar nas 1200 limusines movidas a diesel, deixaram um saldo indubitavelmente negativo para a COP 15.

(Atila Roque)

Um Natal

Posted 12/12/2009 by Alexandre Brandão
Categories: Cultura

Na minha infância, houve uma Geroma (ou seria Geromba?). Houve também Ana Germana e Sá Inês. Sá Chica; Dita. Houve um seu Frota. E meu tio e padrinho Lozo.

Houve um tombo da carroça. Manta numa troca de uma patativa por uma bicicleta. Carreira que levamos, eu e meus amigos da rua, do Dê da Dona Maria. O velório da mãe da Dona Antonina, fessora do terceiro ano. A magia da casa de minha avó Tomásia, cega que se mantinha longe da escuridão.

Aquele passe de Pelé. O gol. A Copa de 70. Houve a gaiola silenciosa na mão do tio Lupércio. Reunião de homens na varanda falando de negócios. O cavalo Bainho, o Segredo e a Londrina. Também o Guarani. Dez pães de queijo comidos antes do almoço — o que deixou estarrecido meu tio Lozo, logo ele, que matava frango à distância, com tiro de cartucheira. E ainda a bica fria do Gordurinha, onde éramos obrigados a fazer as necessidades no fundo do pomar.

Houve um romance de mentira com a vizinha. Numa tarde, a brincadeira de carregar às costas por toda a casa uma de minhas irmãs: eu de Cristo e ela de cruz a ser levada ao calvário que nunca chegava, e nunca chegou. Tudo indica que não sou Cristo que se preze. E minha irmã nem de brincadeirinha convencia, ou convence agora, como cruz.

As balas da Kopenhagen levadas do Rio de Janeiro por minha avó materna pros netinhos caipiras do interior de Minas. O mar nas férias. A ilusão de que, tendo o mar por perto, tudo o mais seriam balas de frutas e Nhá Benta. Já então a solidão beliscava a gente, e a gente, inocente demais pra entender dessas coisas.

A conversa mole de meu pai tentando encorajar alguém a comprar ou a vender. O momento encantado de vê-lo apartar os bois. E a suspeita de que ele carregava, no corpo franzino, sabedoria e ansiedade. Houve meu pai.

Houve minha mãe. Os trovões que a deixavam paralisada. Os raios que a deixavam como que inválida. De outro modo, o sorriso que iluminava seu rosto de menina peralta, que algum dia, na infância, quebrara vidraças de vizinhos.

Sopa de macarrão temperada pela Célia. A Célia e seu carinho desinteressado. Houve uma pedrada, aliás, duas, em minha cabeça e consequentemente muito sangue. Na véspera do casamento da Rita, um choque elétrico, cuja marca trago até hoje.

Houve, entre tantas lembranças, um Natal em que corremos à varanda da casa da tia Yole atendendo ao grito de alguém avisando que Papai Noel cruzava o céu com suas renas. Não era blefe. Porém, mesmo vendo-o ali em seu trenó riscando a escuridão, não me convenci dele. Ao contrário: passei a ter certeza de sua inexistência.

Foto retirada de www.photoshopcreative.com.br

Coisa de meninos

Posted 10/12/2009 by Atila Roque
Categories: Economia

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Não é uma gracinha o Ministro da Fazenda medindo o tamanho do PIB com a União Européia?

Vamos ver  quem faz pipi mais longe?

Nada como viver em um país desenvolvido…

Sarrafo em defesa da corrupção

Posted 09/12/2009 by Atila Roque
Categories: Política

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A polícia militar de Brasília mostrou de que lado se encontra e cumpriu com esmero a ordem de reprimir as manifestações pacíficas contra o esquema de corrupção comandado pelo governador do DF, José Arruda, aquele mesmo que há alguns anos fraudou uma votação no Senado. As cenas gravadas mostram que os policiais não estiveram ali a contragosto, mas gostavam do que faziam. Basta ver no vídeo a vontade com a qual sentam o sarrafo  – melhor dizendo, porretes – em um manifestante deitado no chão com as mãos na cabeça.

Até quando o Brasil vai conviver com as cenas de maços de dinheiro da corrupção que passam de uma mão suja para outra imunda? Até quando assistiremos constrangidos a grana sendo enfiada cueca adentro (sempre homens, os corruptos filmados), espremendo a pobre genitália, obrigada a dividir espaço com a bolada alegremente embolsada?  Até quando as instituições que deveriam punir os corruptos, espancam e reprimem os que ainda se indignam e protestam? Estaremos perdendo de vez a vergonha?

Fala Vovô!

Posted 19/11/2009 by Atila Roque
Categories: Cultura

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(Entrevista retirada do Blog do Geledés)

No próximo 20 de novembro será comemorado o dia da Consciência Negra no Brasil. A data serve para ‘que a população afro-brasileira faça uma reflexão sobre os seus antepassados e a busca por espaço na sociedade’, na avaliação de Antonio Carlos do Santos, mais conhecido como Vovô, líder do Ilê Aiyê. Para ele, no entanto, isso ainda é algo que está longe de acontecer. ‘Não existe um trabalho de resgate da memória de Zumbi. Até nas escolas ainda existe muita resistência dos professores, que também não estão capacitados’, diz o líder comunitário.

Em entrevista exclusiva ao Correio24horas, Vovô fala sobre carnaval, racismo, segregação, desaparecimento dos afoxés e Mohamed, o jovem de Guiné que fugiu para o Brasil em um navio com o sonho de virar jogador de futebol, e que acabou sendo adotado por Vovô. ‘Ele está bem adaptado. Está até namorando, já!’, disse o líder do Ilê Aiyê, que também comentou como está  o bloco e o terreiro Axé Jitolu após morte de Mãe Hilda. ‘Esse vai ser o primeiro carnaval sem a presença de minha mãe. A gente ainda não sabe como vai ser festejar sem ela’.

Ainda segundo Vovô, apesar de o estado baiano ser o local onde existem mais negros fora da África, ele ainda não é a terra ideal para um negro viver: ‘A Bahia continua sendo uma terra muito perversa, muito racista, e que segrega muito’. Segundo ele, essa situação desigual tem como motivo um ’ranço da escravidão’ que ’persegue’ a população afro-brasileira. ’Nós estamos um pouco acomodados, nos conformamos com muito pouco. Isso tem que mudar!’.

Com tantos debates e discussões sobre a difusão das raízes afro no país, como você vê atualmente a imagem do negro na sociedade?
Nós podemos dizer que avançamos, que o saldo está positivo. Mas não posso dizer que me sinto contemplado. Muita coisa ainda tem que ser feita. A Bahia continua sendo uma terra muito perversa, muito racista e que segrega muito. Hoje, temos muitos negros capacitados na política. Também é importante ter negros no poder, precisamos fazer nossa parte, tomar mais gosto pelo poder, pois ainda temos aquela coisa do ranço da escravidão que nos persegue. Veja o Ilê. Quando surgiu, causou um alvoroço muito grande, e até hoje nós somos referência. E é isso que é preciso, lutar mais. Nós estamos um pouco acomodados, nos conformamos com muito pouco. Isso tem que mudar.

Mas, como é esse racismo que, segundo você, ainda existe na Bahia?
O racismo é algo muito elaborado e organizado. Com o passar dos tempos, ele mudou de forma. Agora, não agridem, não usam palavras. Eles fazem ações, agem através de fachadas e temos que encontrar formas de combater isso que impede o nosso crescimento na educação e até mesmo na saúde. São várias formas sutis que aparentemente são como ‘correntes invisíveis’. Na mídia, por exemplo, eles não dão divulgam informações sobre blocos afros. Na Bahia, no Brasil, não há conflito racial porque todo mundo acha que isso está certo. A gente não consegue se unir.

Em mais de três décadas de existência, o Ilê Aiyê continua firme, enquanto outros acabaram no esquecimento e pararam de desfilar. A que você atribui esse desaparecimento?
Nos blocos Afro faltam investimentos e patrocínio. O Ilê Aiyê consegue sobreviver nessa resistência, que se deve à cumplicidade do povo, que está sempre nos acompanhando e gosta da nossa proposta. Essa cidade é racista, é desigual. Também tem a questão de não ter estrutura para conseguir se organizar.

O Ilê, hoje, é estruturado e com uma base sólida. Antes dessa consolidação, quais foram as maiores dificuldades?
Bem, o Ilê foi um bloco que desde o inicio conseguiu colocar na cabeça das pessoas que, se elas querem um bloco bom e bonito, têm que pagar. Essa história de que tudo de negro é filantrópico não existe. Vivemos em um país capitalista. Você tem que pagar funcionários, alugar trio, tem que pagar almoço, pagar porteiro, os encargos… Você não pode competir no Carnaval se sair com um ‘triozinho’ pequenininho. Somos cidadãos e precisamos ter um espaço de qualidade. Conseguimos manter essa mentalidade desde o inicio. Se não fosse isso, seria bem mais difícil. O Ilê gera negócio, emprego, renda, cursos profissionalizantes. Além do mais, Carnaval é muito caro. Precisamos ter recursos.

Neste ano, você adotou o Mohamed e impediu que ele fosse extraditado de volta à Guiné. Passados mais de seis meses, como está a adaptação dele ao país e o que mudou na vida de vocês após a adoção?
Ele está bem, está estudando, jogando futebol, que é sua paixão, mas… Ele também se apaixonou pelo Bahia, aquele falso (risos). Ele mora no Curuzu, com as tias e os primos e fica lá no Ilê, tomando curso de informática e português. Lá no Curuzu é melhor, porque tem muito mais movimento do que aqui onde moro (bairro do Iapi). Ele está bem adaptado, está até namorando, já! (risos). Ainda não conheci a família dele, mas sei que ele tem apenas um irmão gêmeo, um tio e uma avó.

Sobre o Dia da Consciência Negra, muitos negros não sabem o motivo da data, nem sequer fazem um momento de reflexão. Como você enxerga isso?
Há pouco tempo, essa data não era muito celebrada. Comemoravam mais o dia 13 de maio. Mas já passaram a reconhecer mais, tem a caminhada que sai do Campo Grande… Já estão sendo realizados mais eventos, como a peregrinação para a Serra da Barriga em Palmares, terra de Zumbi. Porém, tem gente que não tem muito conhecimento e até conseguirem mudar a representação do nome Zumbi. Muitos achavam que era uma assombração, um bicho feio, uma coisa assustadora e diziam as crianças ’se não for dormir vou chamar o Zumbi’.

Não se tem feito um trabalho de resgate da memória dele, que foi um herói nacional. O próprio governo tem que se responsabilizar a não falar de Zumbi só no dia 20 e mês de novembro. Tem que ser dito no dia a dia, nas escolas. Mas até nas escolas ainda existe muita resistência dos professores, que também não estão capacitados.

Voltando ao assunto carnaval, como estão os preparativos? Qual será o tema do bloco para 2010?
O tema vai ser Pernambuco, mas também iremos falar sobre revoluções de países africanos, o negro no poder, além de apontar alguns estados brasileiros como referências africanas, como Bahia e Maranhão. Escolhemos Pernambuco porque é um lugar que tem muitos negros e muitas manifestações do recôncavo durante o ano. Vamos trazer maracatus e bonecos gigantes, para fazer uma segunda de Carnaval muito bonita. Sem esquecer que esse vai ser o primeiro Carnaval sem a presença de minha mãe. A gente ainda não sabe como vai ser festejar sem ela, mas com certeza será um Carnaval com muito brilho.

Há quase dois meses o Ilê e a Bahia perderam Mãe Hilda. Conta um pouco da importância da matriarca e como ficou o grupo e o terreiro Axé Jitolu após a perda?
Ela era uma pessoa muito presente na minha vida e na vida do Ilê. No dia-a-dia, não fazíamos nada sem consultá-la. E ela sempre estava lá para nos dar uma orientação. Então, isso ainda é muito novo pra gente. Essa semana teve uma homenagem para o Ilê, uma Sessão Especial na Câmara dos Vereadores, em que ela também foi homenageada em um troféu. Nesse troféu, estava estampada a imagem dela. No dia do aniversário ela também foi homenageada e com certeza será homenageada no Carnaval.

 

 

Jaqueline Jesus

Posted 15/11/2009 by Atila Roque
Categories: Sociedade

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Ela foi notícia, uma excelente notícia, no Correio Braziliense de 08/11, em matéria assinada por Marcelo Abreu. Confiram e desfrutem o domingo:

“Jaqueline Jesus. Brasiliense, nascida no Hospital São Lucas, na Asa Sul. É filha de um sergipano operador de computador e de uma professora mineira de ciências. Família pequena, só tem um irmão, mais novo que ela. Jaqueline viveu a maior parte de sua vida em Ceilândia, no Setor O. Estudou em escolas com formação religiosa. Sempre foi uma das melhores alunas da sala. Gostava de artes , especialmente desenho. É funcionária da UnB, cedida ao Ministério do Planejamento. Formou-se em psicologia na universidade. Antes, porém, havia passado para química, mas desistiu no primeiro ano.

Fez mestrado — foi aprovada em primeiro lugar. Ano que vem, defenderá sua tese de doutorado no Instituto de Psicologia da UnB. Em tempo: também foi aprovada em primeiro lugar na seleção para o doutorado. Em tudo que se propôs fazer, Jaqueline se destacou como exemplo.

E daí? O que esta história tem de tão espetacular, além de revelar uma enorme capacidade de luta e conquista dessa moça? Quantos outros também não conseguiram tanto? A história de Jaqueline começa a fazer toda a diferença quando se descobre que ela nem sempre foi Jaqueline. Como? Jaqueline é uma impostora? Usou documentos de outra pessoa? Fraudou exames? Mentiu para todos o tempo todo? Nada disso. Na verdade, Jaqueline nasceu Jaques Jesus. Há um mês virou, efetiva, assumida e psicologicamente Jaqueline — uma mulher transexual (leia a matéria completa para saber mais).”

À espera de um carnaval temporão

Posted 03/11/2009 by Alexandre Brandão
Categories: Cultura

Imagine que, sem mais nem menos, os tambores resolvam inaugurar do seu jeito o tempo da destemperança, inventando com histeria de taróis um carnaval temporão, novembrino.

Com algum esforço, dará para improvisar uma fantasia mexendo e remexendo no armário, incluindo o do pai, o da mãe, o do marido, quem sabe até o do filho, mas neste caso não procure o que ali não se pode ou não se quer achar. Filhos têm fantasias do arco da velha, algumas os pais se esquecem de tê-las tido também.

Irá cair-lhe bem a roupa da Borralheira adaptada aos trópicos. Não lhe faltarão sapatinhos carregados por príncipes nórdicos, nerds, selênicos ou céticos. Nem digo a de um pirata de meia tigela: a venda num olho, mas o gancho no pé direito. O pileque tornará possível que se fique fantasiado, sem ficar fantasioso, cada um dos que se lançarem à rua no exato momento em que rufar o primeiro baticum.

Não faz mal que não estejam disponíveis os banheiros químicos, nem na festa oficial estão.

Não faz mal que a cidade esteja correndo de cá pra lá e de lá pra cá na sua hiperatividade habitual e sem norte. Deixe o trânsito congestionado digerir a fumaça, que é sua digital e nossa morte. Deixe as crianças na saída da escola espantarem-se com homens de saia e mulheres tortas de dar pena. Sopre-lhes ao pé do ouvido que isso é apenas uma das faces da alegria.

O contágio desse carnaval será homeopático. Um folião descerá de seu décimo primeiro andar trajando chapéu coco e bengala, crioulando lindamente a figura de Chaplin. Os vizinhos olharão praquilo com comichão de denunciar o meliante ou internar o trânsfuga. Porém surgirá, bem embaixo do nariz desses incautos desconcertados, uma lourinha que, traindo a lua, dar-se-á ao sol em trajes de odalisca com um nada de pudor. Sem contar um padre de araque que rezará três vezes antes de verter a primeira talagada e abraçar os pecados que só mesmo a carne sabe e ousa cometer. Quedarão conformados os caretas.

Surpresos, os porteiros tenderão a ficar, como os soldados, em posição de sentido, porém não tardará muito para inventarem danças com a vassoura, os mais sortudos, com a dama roliça do 307 e os enrustidos, com o rapagão de rua que está sempre por ali, às vezes dando conta de si mesmo embaixo do cobertor escondido durante o dia sabe-se lá onde e em cima dos jornais que não se cansam de noticiar as repetidas falcatruas, os desastres esportivos e as aberrações sociais.

Até mesmo os que, na festa de momo, preferem a serra, as águas de Minas ou o frio europeu sambarão espremendo-se nas cercanias de um trio elétrico improvisado numa ambulância cujo doente estará fantasiado (é melhor acreditar nisso) de morto.

Haverá beijos dos mais íntimos. Haverá abraços dos mais honestos. Haverá brigas; como de praxe. Haverá descobertas que, à primeira vista, assustam: um desvio de sexualidade, uma tendência ao álcool, uma queda pra vagabundagem.

Quando amanhecer, a cidade estará suja, não em demasia, e o Sorriso dará conta dela em dois tempos, inumeráveis vassouradas e não sei quantos passos no ritmo de um samba que inventa e assobia pra dentro.

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Ilustração sobre foto de Daniela Clark - G1

Por outro lado, a mesma cidade de todo o dia estará feliz por ter-se rendido ao imprevisto e desejará outros momentos como aquele em que a alegria mandou o baixo astral pro céu do inferno, longe dali.

As nossas tristezas

Posted 29/10/2009 by Atila Roque
Categories: Cultura, Segurança, Sociedade, Violência

Ontem conversando com uma grande amiga, especialista em segurança pública, entrei em contato com uma enorme tristeza. Uma tristeza que já tinha de certa forma sido expressa no comentário do meu amigo, irmão, escritor e poeta, Alexandre Brandão, o Xandão, no post abaixo. Ela passou os últimos dias vendo e revendo as fitas com as cenas que flagraram a chocante indiferença dos policias diante da vítima ainda agonizante, mais preocupados em predar os predadores que tinham acabado de ferir mortalmente o coordenador social do Afroreggae, Evandro João da Silva. O que ela viu e a deixou ainda mais chocada não foi apenas a frieza abjeta dos policiais diante de mais uma morte inútil.  Assistindo ao registro visual dos muitos minutos, quase uma hora, em que Evandro fica ali estendido na calçada, ela se deu conta da indiferença coletiva, patológica, que nos adormece os sentidos diante  da tragédia humana. As pessoas passam, olham e seguem, sem que ninguém se aproxime daquele ser humano no chão para verificar se ainda vive. Ninguém usa o celular para chamar imeditamente uma ambulância que, sabemos, chegou quase uma hora depois do acontecido. Ninguém derrama uma lágrima pela tragédia do Evandro, a tragédia de todos nós, no momento em que ela acontece. As circunstâncias que a cercam são um testemundo eloquente da nossa miséria existencial. Estamos nos tornando piores a cada dia se continuamos a acordar e dormir com essas tragédias como se fossem apenas um fato como outro qualquer, capaz de gerar, no máximo, mais uma tocante e necessária manifestação do Movimento Rio da Paz. Enquanto isso a polícia parece seguir o padrão de combater o terror com mais terror, levando vidas inocentes pelo caminho, a mãe de apenas 24 anos com o bebê no colo ou o menino de 15 anos que mal merece manchete nos jornais. A minha amiga, acostumada a dureza do seu ofício, contou que chorou muitas vezes diante daquelas imagens. Chorou por todos nós.

(Atila Roque, 28/10/2009)

O retorno das más notícias

Posted 22/10/2009 by Atila Roque
Categories: Segurança, Sociedade, Violência

Parecia que a onda começava a mudar e, finalmente, boas notícias começavam a surgir no noticiário da segurança pública. A Conferência Nacional de Segurança Pública (Conseg) recém realizada, as experiências das Unidades Paficificadoras da Polícia (UPPs) em algumas favelas cariocas e a premiação dos exemplos bem sucedidos da ação policial virtuosa eram sinais claros de que novos ares começavam a soprar na área da segurança pública, especialmente no Rio de Janeiro. Começava-se, inclusive, a se falar no surgimento do sentimento de “orgulho policial”,  como em outros momentos se falou de “orgulho negro” (black is beautiful) ou orgulho gay, para expressar um crescente reconhecimento do valor social de uma polícia eficiente e cidadã, capaz de agir com inteligência e sem truculência na prevenção e repressão do crime. Uma polícia que almeja ser cada vez mais parte da solução e não dos problemas.

No entanto, os episódios desta semana vieram mostrar para os que ainda se iludiam que o buraco é bem mais embaixo e que estamos longe do dia em que teremos uma polícia e uma política de segurança digna de uma democracia e de um país com as dimensões e ambições do Brasil. Os eventos chocantes de violência e caos no Rio de Janeiro que resultaram, em menos de uma semana, na morte de mais de 30 pessoas e na derrubada  de um helicóptero da polícia, revelaram a falta de coordenação e articulação das principais autoridades do Estado, o baixo preparo da polícia e a permanência de antigos vícios. Surpreendidos pela guerra do tráfico a polícia reage com ações espalhafatosas de baixa eficiência e muito violência, especialmente para as comunidades pobres diretamente envolvidas. O risco agora é o retrocesso dos movimentos ainda tímidos,  mas extremamente importantes, de civilização da ação policial, em favor da pirotecnia espalhafatosa das ações espetaculares, quase sempre acompanhadas de violência e de baixíssima eficiência no combate efetivo do crime.

E para completar as péssimas notícias dessa semana, a informação de que policiais militares que chegaram quase imediatamente à cena do trágico assassinato do coordenador social do Grupo Cultural Afroreggae, Evandro João da Silva, no último domingo, não apenas ignoraram a sua agonia, deixando de socorrê-lo logo após o assalto, mas também permitiram aos assassinos irem embora depois de negociações obscuras feitas imediatamente após o crime. A gravação recuperada das câmeras de segurança do comércio e dos prédios com as imagens indiferença dos policiais diante de uma pessoa baleada e, depois, de um dos policiais voltando para o carro com os pertences roubados de Evandro, enquanto um dos assassinos deixava o local tranquilamente, choca e causa enorme tristeza.

A maneira como as autoridades públicas responsáveis pela segurança pública vão atuar nos próximos dias será um indicador valioso do que devemos esperar daqui para a frente. Só posso sonhar que o tempo das boas notícias não tenha sido tão precocemente encerrado.

(Atila Roque, 21/10/2009)

Luis Nassif, mídias e novas tecnologias

Posted 19/10/2009 by Atila Roque
Categories: Cultura, Mídia

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O jornalista Luis Nassif é um pioneiro do jornalismo de qualidade na internet. Por isso é sempre bom prestar atenção no que ele anda dizendo sobre as tendências atuais da mídia e das novas tecnologias, como faz neste vídeo, publicado hoje no Portal do Nassif:

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